Mês: novembro 2016

Yoga para crianças é mais poderoso do que você imagina
Yoga para crianças é mais poderoso do que você imagina

Na escola, falta concentração. No parque, é difícil se relacionar bem com as outras crianças. Em casa, estímulos como TV e celular são o suficiente. As crianças têm corrido graves riscos de desenvolvimento na era contemporânea. Replicando as ações dos pais e demais adultos ao redor, suas expressões comportamentais podem estar relacionadas com falta de empatia e perda de atenção.

Mas nem tudo está perdido. É que, como alertam profissionais da psicologia infantil, práticas de postura, bem-estar e amadurecimento emocional podem ajudar a criança a manter sua inteligência corporal e, consequentemente, lidar de forma mais orgânica com o mundo ao seu redor.

De acordo com João Soares, professor de Yoga para crianças há 22 anos, elas já possuem todos os artifícios necessários para se utilizar da yoga como forma de expressão e ação em sua vida. “Você vê uma criança sozinha dando cambalhota, fazendo posturas onde ela alonga a coluna em extensão e outras onde alonga compensando esse movimento de extensão”, ele conta. “A criança já faz vários movimentos de inteligência corporal”.

sports-428030_1280Para ele, a importância da prática na infância vem atrelada à necessidade de não perder o contato com o corpo, pois é com ele que as pessoas se relacionam com o mundo. E, no caso da criança, é com ele que ela vai brincar, por exemplo, uma atividade cuja ausência pode comprometer sua experiência. “Hoje não tem mais árvore para subir, não tem mais quintal, você vê o absurdo de crianças de dois anos com celular, com o tablet”, João observa. “É, assim que ela perde o contato com o corpo”.

João, que é também contador de histórias, chama a atenção para algumas queixas que poderiam ser resolvidas com a prática de yoga e do autoconhecimento corporal já na infância. “Os professores reclamam que os alunos não tem concentração na escola. Se fizermos um paralelo com yoga, como ela vai ter concentração se não tem a coluna fortalecida? Ela fica enterrada, não usa o corpo pra brincar, pra correr”, ele aponta. “Se ela faz yoga, fortalece a coluna, ela se senta melhor, o cérebro é melhor oxigenado e os pulmões não ficam pressionados quando ela senta”.

Uma abordagem especial para o público infantil

As crianças não são como os adultos. Sua experiência no mundo, em cada lugar que conhecem todos os dias, é diferente. Como observa o psicólogo e instrutor de yoga Volnei Pinheiro Junior, a criança vive o mundo pela primeira vez e precisa de uma abordagem diferenciada para que entenda e se interesse pelas mensagens do yoga.

child-538029_1280“É bom estimular ainda cedo essa capacidade da criança de estar no presente, que é uma forma de meditação”, Volnei afirma, ressaltando que, na infância, o estado de atenção plena é muito mais natural e contínuo que nas demais fases da vida. “Isso vai ajudá-la a acalmar a mente, a conduzir a sua energia, a perceber que quando ela está cansada ela precisa descansar, quando ela está com energia precisa usar de uma maneira que seja construtiva, para criar algo e não pra brigar”.

Mas yoga não é uma prática silenciosa, quieta, que exige uma série de posturas e momentos de reflexão? Como uma criança vai se atentar para o autoconhecimento que ele proporciona se ela não consegue ficar parada, por exemplo?

Enquanto o adulto se relaciona de forma racional com o mundo, a criança o faz de forma lúdica e desprendida. Por isso, recursos que se utilizam de elementos já presentes e enraizados no imaginário e na convivência das crianças podem ser extremamente úteis na busca por conscientizá-las dos preceitos e ensinamentos do yoga.

Um desses recursos são as histórias.

human-746931_1280Yoga com Histórias: lúdico, dinâmico e poderoso

“Histórias não são só historinhas”, João avisa. “São remédio para a alma”. Como ele explica, muitas crianças enfrentam situações difíceis no dia a dia e encontram nas histórias conforto e sabedoria, pois elas trazem elementos poderosos em suas narrativas de empoderamento e superação.

Ele começou a trabalhar com yoga para crianças na Casa Abrigo, em São Paulo, desenvolvendo a prática com crianças violentadas. Observando atentamente o imaginário do mundo infantil em busca de aplicar na prática do yoga as referências mais importantes para as crianças, ele percebeu que contar histórias e mesclá-las com posições era muito efetivo.

“São elementos que as fortalecem”, diz ele sobre os elementos presentes nas histórias. “As histórias são conhecimentos maravilhosos para (a criança) encontrar equilíbrio emocional. Já se ouve falar na historiaterapia, a arte de contar hitórias pra ajudar as crianças a passarem determinadas dificuldades. Os grandes contos de fada não morrem porque trazem grandes mensagens”.

Por isso, em parceria com com sua esposa e também professora de yoga, a pedagoga Rosa Muniz, e com o produtor Dudu Toledo, além de outros colaboradores, ele idealizou um projeto que busca levar o yoga às crianças e proporcionar, de forma lúdica e comprometida, bem-estar na infância.

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Ilustração de Thais Uzan para o Yoga com Histórias (Imagem: reprodução)

O Yoga com Histórias, que começou como um grupo pioneiro no Brasil de aplicação de yoga para crianças sob a metodologia das narrativas lúdicas, agora ultrapassa fronteiras, assim como o método em si, que atualmente é difundido em vários países. Após a apresentação de um piloto à TV Rá-Tim-Bum, o projeto vai virar série e a primeira temporada, que trará jornadas de autoconhecimento e suas incríveis metáforas à prática de yoga, começa a ser gravada este mês.

Para isso, o Yoga com Histórias criou uma campanha de arrecadação coletiva. A série ficará no ar por pelo menos dois anos e será exibida não só no Brasil, mas também em Portugal, no Japão e em outros países. O mais interessante: Thais Uzan, a animadora responsável pelo desenvolvimento do projeto para a TV, foi aluna da primeira geração de crianças do Yoga com Histórias.

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(Imagem: Yoga com História/Reprodução)

No programa, a equipe do projeto vai trabalhar com temas. O primeiro é o medo. “Junto com isso, trabalhamos posições e posturas de yoga que ajudam a despertar a força interna para enfrentar o medo”, conta João. “Associando histórias com brincadeiras, tem-se um instrumento maravilhoso para ajudar as crianças. Medo, raiva, solidão, todos os sentimentos… As histórias ajudam de forma inconsciente a refletir e se apoderar dessas mensagens”.

De filho para pai: uma consciência sobre estar e agir no mundo

Crianças estão o tempo todo assimilando o mundo e, como Volnei explica, replicando ações dos adultos que vivem em seu entorno. Ele chama a atenção para a importância do exercício do carinho e da empatia por parte de pais que desejam que seus filhos também desenvolvam bons sentimentos para com as outras pessoas.

Mas João adverte para um triste fenômeno: os pais não têm tido atitudes compassivas dentro de casa e, muitas vezes, levam seus filhos para o yoga na esperança de que a prática vá resolver problemas comportamentais das crianças.

human-730204_1280E Volnei, que desenvolveu aulas de yoga para crianças em uma escola de Curitiba durante três meses e observou como elas lidavam com a prática, também repara nesse cenário. “Os pais estão pouco atentos ao que está acontecendo, são pouco empáticos, e acabam não percebendo a criança”, diz o instrutor. “Emocionalmente, ela absorve tudo. Mesmo que não entenda, ela está registrando essa experiência. Então, quando eles estão pouco conscientes, muito estressados, isso vai afetar diretamente a criança porque ela vai achar que esse é o jeito correto de viver a vida”.

Por isso, é importante salientar que a união de esforços, dentro e fora de casa, com e sem a prática do yoga, dos instrutores e dos pais, será decisiva na construção de mundo positiva da criança. “O passo a passo do yoga vai ajudar a criança a estabelecer uma relação melhor com o mundo”, Volnei observa. “Os valores éticos e morais do yoga vão ajudar a criança a adotar essas atitudes na infância e conscientizá-la sobre valores humanos”.

Yoga ajuda a desenvolver a consciência corporal e autoconhecimento

Ioga ajuda crianças a desenvolver consciência corporal e autoconhecimento

Com aulas lúdicas, prática também melhora postura e concentração

Por: Camila Kosachenco
06/05/2016 – 14h51min

Ioga ajuda crianças a desenvolver consciência corporal e autoconhecimento Júlio Cordeiro/Agencia RBS

Foto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS

Esqueça os nomes complicados como bhadrásana, gorakshasana ou utkatásana. Para crianças a partir dos dois anos, as tradicionais posturas do ioga viram posição “do gato” , “do cachorro” ou “do leão”, e a respiração é exercitada por meio do movimento da “barriga dançante”. De forma lúdica, divertida e repleta de associações, a prática milenar ajuda as crianças a desenvolver a consciência corporal e o autoconhecimento.

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Diferentemente das técnicas voltadas aos adultos, o chamado ioga kids não é focado na realização de meditação e posturas, embora as mais simples possam ser executadas. Durante os 50 minutos de aula, meninos e meninas são estimulados a trabalhar coletividade, noção de espaço, imaginação e criatividade por meio de histórias, danças e brincadeiras.

Na escola Balasana Yoga Kids Brasil, inaugurada em março deste ano em Porto Alegre, o encontro começa com um momento de concentração, em que as crianças fazem o famoso “OM”, também conhecido como “som da natureza”. Em seguida, realizam um pequeno aquecimento em todo o corpo. Nesse momento, podem bater os pés no chão, massagear as próprias pernas e movimentar o pescoço para ativar o organismo. Passada a agitação do aquecimento, é hora de praticar o ioga.

Embalados por uma história contada pela instrutora Juliana Rosa, os alunos com idades entre quatro e 10 anos viajam para além das paredes da sala. Invadem uma floresta encantada onde encontram árvores, borboletas, cachorros, gatos, cobras e leões, que liberam um “pozinho mágico da felicidade”. A cada animal, uma nova postura do ioga é realizada. Antes de colocar o ponto final na trama, um novo exercício é realizado. Desta vez, o foco é na respiração: de olhos fechados e concentrados no entra e sai de ar dos pulmões, os alunos meditam por 30 segundos e depois podem relaxar no tapete.

Apesar do tom de brincadeira, a atividade traz uma série de benefícios, que vão desde a melhora na postura até um aumento da concentração.

— Sinto que esse conhecimento do corpo vai trazendo foco e tranquilidade para a rotina deles — avalia Juliana.

Essa evolução também se reflete na vida escolar das crianças, que ficam mais equilibradas, concentradas e relaxadas. Outro aspecto importante é o da coletividade, aponta a professora de ioga Clarissa Brittes. Como costumam ser realizadas em grupos, as atividades também conseguem transmitir valores — como a importância da amizade, por exemplo — e estimular a noção de respeito ao próximo.

— Trabalhamos muito a capacidade criativa e de observação. Os alunos são instigados a observar uns aos outros, e há exercícios em que eles precisam ajudar os colegas. Todo mundo tem a sua capacidade, e a ioga colabora para desenvolvê-la. Isso se reflete em todas as coisas da vida — diz Clarissa.

Ganhos físicos e emocionais

Beatriz, cinco anos, pratica ioga desde os trêsFoto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS

Praticante de ioga desde os três anos, a pequena Beatriz Gebhardt, hoje com cinco, segue os passos da mãe, a psicóloga Fabiana Gebhardt, adepta da prática há mais de uma década. Para Fabiana, a atividade ajuda a menina a reconhecer as emoções, a se ouvir, fazer silêncio e perceber o próprio corpo.

— São aspectos que estão em falta no mundo hoje — diz a mãe.

Embora não tenha percebido nenhuma mudança no comportamento da filha, Fabiana destaca os pontos positivos das aulas semanais.

— O conteúdo e as experiências que são provocadas com a prática oportunizam que a gente converse sobre temas importantes da vida, como a amizade — destaca a psicóloga.

A ciência comprova

Não é só na observação que se baseiam os benefícios da ioga: algumas pesquisas científicas já investigam os efeitos da prática para os pequenos. Em 2009, a Health Science and Management, de Taiwan, realizou um estudo em que observou 31 crianças com idades entre sete e 12 anos que praticaram ioga por sete semanas. Nos resultados, os especialistas viram melhora na flexibilidade, na força muscular e na capacidade cardiorrespiratória. Como saúde física e mental caminham juntas, o levantamento sugere que as crianças tenham se beneficiado psicologicamente também.

Na mesma linha, a doutora em neurofisiologia queniana Shirley Telles — referência mundial nos estudos que investigam os efeitos terapêuticos da ioga e da meditação sobre a mente e o corpo — defende que o cérebro é mais suscetível aos estímulos internos e externos nos dois primeiros anos de vida. Em texto publicado em 2012 no livro Child and Adolescent Mental Health, ela diz que essa constatação justificaria o início da prática “o quanto antes”. Entretanto, ela faz uma ressalva: não há estudos que comprovem que crianças que iniciem a ioga cedo sejam mais saudáveis tanto física quanto mentalmente.

Yoga para crianças

Benefícios que a Yoga Pode Trazer para as Crianças

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ABR,2015
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Yoga é uma ciência muito antiga, que propicia saúde e bem-estar através da consciência corporal, força, flexibilidade, equilíbrio da mente e do corpo.

Todos podem receber os benefícios da yoga, independentemente de suas capacidades físicas. As posturas (ou asanas), são praticados por pessoas de todas as idades e em muitos estados diferentes de saúdes.

Os benefícios da Yoga para crianças e adolescentes, atinge cada vez mais importância nas escolas do mundo todo (não no Brasil), pois a prática da yoga ajuda as crianças a desenvolverem inteligência emocional, habilidades de comunicação, confiança e empatia. Ela nutre o trabalho em equipe e liderança, além de fornecer um ambiente escolar mais produtivo. A maioria dos especialistas, recomendam que as crianças comecem a praticar Yoga a partir dos 4 anos.

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12 benefícios que a Yoga pode trazer para as crianças:

1. Melhorar a consciência corporal: As posturas de yoga variam entre equilíbrio, força, torções, flexões e inversões. Todas as posturas fazem as crianças aprenderem sobre o seu próprio corpo, ensinando-lhes a perceber e sentir os movimentos. A consciência do corpo é uma ferramenta valiosa para todas as fases e idades da vida.

2. Favorecer a flexibilidade e fortalecimento ósseo e muscular: As posturas ajudam no desenvolvimento ósseo e muscular, auxiliando no crescimento, além disso, ter força e flexibilidade, prevenido lesões articulares futuras.

3. Desenvolver habilidades motoras: A yoga melhora o equilíbrio e estabilidade, e desenvolve a coordenação. Ao desenvolver habilidades motoras, as crianças têm um maior sentido de espaço físico e espaço-temporal.

4. Aumentar a concentração: A movimentação de uma postura para outra, requer foco e autocontrole. Isso permite que as crianças aumentem sua concentração e consciência corporal, que é essencial para qualquer tipo de aprendizagem.

5. Elevar autoestima e confiança: As posturas investidas e de equilíbrio, precisam de força, flexibilidade e foco; Isso faz com que as crianças passem a acreditar em suas capacidades, e não desistam dos seus objetivos e suas verdadeiras habilidades. A persistência para alcançar uma postura de yoga, gera autoconfiança em todos os momentos da vida.

6. Viver o momento presente: A filosofia do Yoga ensina a ter a consciência do momento presente, pois quando a nossa mente está pensando no passado ou no futuro, não conseguimos perceber o nosso mais valioso tempo: o agora. Quando as crianças estão envolvidas nas posturas, elas estão com foco no agora, e aprendem a levar a consciência do momento presente ao longo de suas vidas.

7. Cultivar um estado relaxado de corpo e mente: todas as aulas de yoga possuem um momento de quietude e relaxamento. Mesmo que seja apenas por alguns minutos, as crianças aprendem a compreender a importância dessa quietude interior, sentindo seus benefícios, e acabam levando esse aprendizado para suas vidas diárias.

8. Ter disciplina e responsabilidade: Quando as crianças percebem os benefícios de uma prática regular, e que suas realizações não são imediatas, elas aprendem que os resultados dependem de disciplina e responsabilidade.

9. Controlar emoções: Praticar yoga oferece as crianças uma saída imediata para reduzir o stress. É um exercício físico que é ativo e relaxante ao mesmo tempo, e produz endorfinas (hormônios que causam prazer). Os exercícios de respiração aliado às técnicas de relaxamento, são fontes poderosas para acalmar a mente, o corpo, e controlar as emoções. A aula de Yoga ensina o não julgamento e a não competição em direção a si mesmo e aos outros. São ferramentas que uma criança pode carregar em qualquer situação difícil da sua vida.

10. Diminuir a ansiedade: Yoga é uma prática muito eficaz para crianças com transtornos de ansiedade, pois acalma sua mente, que por sua vez, alivia a resposta do corpo ao stress, abrandando as excitações fisiológicas.

11. Aumentar a criatividade: Aulas de yoga para crianças são temáticas e lúdicas, convidando as crianças a explorarem sua própria criatividade e usar a sua imaginação sem limites e sem julgamento, expressando suas experiências e fazendo suas próprias posturas de maneira livre e criativa.

12. Interagir Socialmente: Aulas de Yoga ensinam às crianças que somos todos iguais, independentemente de aparência, etnia e religião. Todos nós temos corpos que funcionam, corações que ama, e sentimentos que sentem. As posturas realizadas em duplas, permitem que as crianças compreendam completamente o conceito de unidade e trabalho em conjunto, inspirando as crianças a serem gentis, pacientes, aceitando e respeitando as dificuldades entre eles e seus pares.

 

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A importância da meditação

Neurocientista da Harvard: Meditação não apenas reduz estresse, aqui está como ela muda o seu cérebro

Tradução JoAnn Schaly

Sara Lazar – PhD Harvard

Sara Lazar, neurocientista do Hospital Geral de Massachusetts e da Escola de Medicina de Harvard,foi uma das primeiras cientistas a aceitar as subjetivas reinvindicações a respeito dos benefícios da meditação e atenção plena e a testa-los com o uso de tomógrafos computadorizados. O que ela encontrou a surpreendeu – que a meditação pode, literalmente, mudar seu cérebro. Ela explica:

 P: Porque você começou a prestar atenção para a meditação, atenção plena e o cérebro?

Lazar: Eu e uma amiga estávamos treinando para a maratona de Boston. Tive algumas lesões por esforço e procurei um fisioterapeuta, que me disse para parar de correr e apenas fazer alongamentos. Então comecei a praticar ioga como forma de fisioterapia. Percebi que era muito poderoso, que eu tinha benefícios reais, então fiquei interessada em saber como funcionava.

A professora de ioga usou de vários argumentos, dizendo que a ioga iria aumentar a compaixão e abrir o coração. E eu pensei: “ok,ok,ok, estou aqui para alongar”. Mas comecei a perceber que eu estava mais calma. Estava mais apta a lidar com situações mais difíceis. Estava mais compassiva e com o coração mais aberto, e capaz de ver as coisas pelo ponto de vista dos outros.

Pensei, talvez fosse apenas uma resposta placebo. Mas então fiz uma pesquisa bibliográfica da ciência, e vi evidências de que a meditação havia sido associada à diminuição do estresse, da depressão, ansiedade, dor e insônia, e ao aumento da qualidade de vida.

A essa altura, estava fazendo meu PhD em biologia molecular. Então simplesmente resolvi mudar e comecei a fazer essa pesquisa como um pós- doutorado.

P: Como você fez essa pesquisa?

Lazar: O Primeiro estudo avaliou meditadores de longa data versus um grupo controle. Descobrimos que os meditadores de longa data tem a massa cinzenta aumentada na região da ínsula e regiões sensoriais do córtex auditivo e o sensorial. O que faz sentido. Quando você tem atenção plena, você está prestando atenção à sua respiração, aos sons, a experiência do momento presente, e fechando as portas da cognição. É lógico que seus sentidos sejam ampliados.

Também descobrimos que eles tem mais massa cinzenta no córtex frontal, o que é associado à memória de trabalho e a tomada de decisões administrativas.

Já está provado que nosso córtex encolhe à medida que envelhecemos – se torna mais difícil entender as coisas e se lembrar das coisas. Mas nessa região do córtex pré-frontal, meditadores com 50 anos de idade tinham a mesma quantidade de massa cinzenta que pessoas de 25 anos.

Então a primeira pergunta foi, bem, talvez as pessoas com mais massa cinzenta no estudo já tivessem mais massa cinzenta antes de terem começado a meditar. Então fizemos um segundo estudo.

Pegamos pessoas que nunca tinham meditado antes, e colocamos um grupo deles em um programa de oito semanas de atenção plena com foco na redução de estresse.

P: O que você descobriu?

Lazar: Descobrimos diferenças no volume do cérebro depois de oito semanas em cinco regiões diferentes dos cérebros dos dois grupos. No grupo que aprendeu meditação, encontramos um aumento do volume em quatro regiões:

  1. A diferença principal encontramos no giro cingulado posterior, o qual está relacionado às lembranças e auto- regulação.
  2. O hipocampo da esquerda, o qual dá suporte ao aprendizado, cognição, memória e regulação emocional.
  3. A junção temporoparietal, ou JTP, à qual está associada a tomada de decisões, empatia e compaixão.
  4. Uma área do tronco do cérebro chamada de Ponte, onde muitos neurotransmissores reguladores são produzidos.

amigdala, a parte do cérebro responsável pelo instinto de ataque ou fuga, e que é importante nos aspectos da ansiedade, medo e estresse em geral. Essa área ficou menor no grupo que participou do programa de oito semanas de atenção plena com foco na redução de estresse.

A alteração na amigdala também foi associada a uma redução nos níveis de estresse.

P: Então por quanto tempo alguém precisa meditar até que comece a ver mudanças no seu cérebro?

Lazar: Nossos dados mostram mudanças no cérebro após apenas oito semanas.

Em um programa de atenção plena com foco na redução de estresse, nossos pesquisados participaram de uma aula por semana. Eles receberam uma gravação e foram solicitados a praticar por 40 minutos por dia em casa. E foi assim.

P: Então, 40 minutos por dia?

Lazar: Bem, foi altamente variável no estudo. Algumas pessoas praticaram 40 minutos todos os dias. Algumas praticaram menos. Algumas apenas umas duas vezes na semana.

No meu estudo, a média foi de 27 minutos por dia. Ou em torno de meia hora por dia.

Ainda não existem dados suficientes sobre quanto alguém precise praticar para se beneficiar.

Professores de meditação lhe dirão, apesar de não existir absolutamente nenhuma base científica para isso, que comentários de estudantes sugerem que 10 minutos por dia podem trazer benefícios subjetivos. Ainda precisamos testar.

Nós estamos apenas começando um estudo que, com grande esperança, nos permitirá acessar quais são os significados funcionais dessas mudanças. Estudos de outros cientistas mostraram que a meditação pode melhorar a atenção e a habilidade de regular a emoção. Mas a maioria dos estudos não foi com neuroimagens. Então agora estamos esperançosos em trazer o aspecto comportamental e a ciência da neuroimagem para trabalharem juntos.

Q: A partir do que já sabemos da ciência, o que você encorajaria os leitores a fazer?

Lazar: Atenção plena é similar a um exercício. É uma forma de exercício mental, na realidade. E assim como o exercício melhora a saúde, nos ajuda a administrar melhor o estresse  e promove longevidade, a meditação se propõe a partilhar alguns desses mesmos benefícios.

Mas, assim como o exercício, não pode curar tudo. Então, a ideia é de ser útil como uma terapia de apoio. Não é uma coisa em separado. Já foi usado com muitos outros distúrbios e os resultados variam tremendamente – impactam alguns sintomas, mas não todos.  Os resultados são às vezes modestos. E não funciona para todos.

Ainda está muito cedo para se tentar concluir o que a meditação pode ou não fazer.

P: Então, sabendo-se das limitações, o que você sugeriria?

Lazar: Parece sim ser benéfico para a maioria das pessoas. A coisa mais importante, se você for tentar fazer, é encontrar um bom professor. Porque é simples, mas também é complexo. Você precisa entender o que está acontecendo na sua mente. Um bom professor não tem preço.

P: Você medita? E você tem um professor?

Lazar: Sim e sim.

P: Que diferença fez em sua vida?

Lazar: Tenho feito isso por 20 anos, então tem uma influência profunda em minha vida. Dá muito “chão” (ancoragem). Reduz o estresse.  Me ajuda a pensar mais claramente. É maravilhoso para interações interpessoais. Tenho mais empatia e compaixão pelas pessoas.

P: Qual a sua prática pessoal?

Lazar: Altamente variável. Alguns dias pratico 40 minutos. Alguns dias cinco minutos.  Alguns dias não pratico nada. É muito parecido com exercício. Exercitar-se  três vezes por semana é maravilhoso. Mas se tudo o que você pode fazer é se exercitar um pouquinho todos os dias, isso também é uma coisa boa. Tenho certeza de que se praticasse mais me beneficiaria mais. Não tenho ideia se estou tendo mudanças no meu cérebro ou não.  E é isso que funciona para mim nesse momento.

Fonte: http://mandalaescola.org

A história de Rama e Sita

YOGA PARA CRIANÇAS

Conta a história, que o bondoso príncipe Rama e sua bela esposa Sita, foram morar na floresta.

Um dia Sita viu um pequeno veadinho ferido por uma flecha e – com o coração apertado – pediu a Rama que o salvasse. Ele sabia dos perigos daquela imensa floresta e, por isso, antes de sair atrás do animalzinho, traçou ao redor da amada um círculo de proteção, aconselhando-a a não sair do traçado no chão.

Pouco tempo após a saída do príncipe, surgiu um velho mendigo pedindo alimento a Sita. Compadecida, ela – que tinha o coração amoroso – ofertou ao velhinho frutas e arroz. Quanto esse se aproximou para pegar, o círculo mágico desenhado por Rama empurrou-o para longe. Tentando se levantar do chão, o velho pediu que a própria Sita lhe trouxesse a comida. A bela princesa nem imaginou que aquele homem oferecesse algum risco e saiu do círculo. Rapidamente o velhinho transformou-se no terrível Ravana – o demônio de dez cabeças! – que, montado em um enorme pássaro, voou para longe levando a princesa.

Ravana tinha a intenção de convencer a princesa Sita a se casar com ele e, por isso a prendeu no alto de uma torre.

Quando Rama, chegou trazendo o animalzinho ferido, logo percebeu o que tinha acontecido… Para ajudar o príncipe Rama, prontificou-se o seu fiel amigo: Hanuman, o deus macaco. Hanuman era filho de Vaio, o vento, e por isso possuía grandes poderes! Pronunciando algumas palavras mágicas, ele cresceu até sua cabeça encostar no céu. Ficou tão grande que em um só pulo chegou à ilha de Sri Lanka, lugar onde morava o demônio de dez cabeças.

Hanuman, além de conseguir informações sobre a princesa, entregou a ela um bracelete de Rama, para que ficasse descansada e esperasse o socorro de seu príncipe.

Ao voltar, Hanuman contou a Rama que sua princesa estava bem, mas que o exército de Ravana contava com com milhares de soldados e com o enorme gigante, irmão de Ravana! Assim foi que, para ajudar, Hanuman convocou seu exército de macacos e ursos e todos partiram com Rama.

Chegaram enfim ao imenso mar que precisava ser atravessado para chegar a Sri Lanka. Rama, com sua sabedoria, debruçou-se no mar e pediu-o para que secasse, a fim de que pudesse atravessar com todo o seu exército. O deus do mar disse que isso ele não poderia fazer: muitas vidas que nele habitavam seriam destruídas! No entanto, aconselhou Rama a jogar pedras sobre o mar…

Assim foi feito… Quando os macacos e ursos jogavam as pedras, eles recitavam com tanto amor o nome de Rama que as pedras começaram a flutuar. Em pouco tempo, havia sobre o mar uma imensa ponte, por onde todos atravessaram.

Em uma corajosa batalha, Rama venceu o gigante!

Enlouquecido com a morte do irmão, Ravana atirava sem parar flechas sobre Rama que, em um momento de distração, foi atingido em seu coração e ele caiu morto!

O exército ainda lutava, mas Ravana sabia que, sem Rama, isso continuaria por muito pouco tempo…

De repente, aconteceu o milagre da gratidão!!!

O veado que Rama havia salvo se aproximou dele e, de seus olhos, uma lágrima caiu bem em cima de um dos olhos de Rama. Em seguida, o pequeno animal caiu morto: com esse gesto, ele deu sua própria vida a Rama que, rapidamente levantou-se e, acertou uma imensa flecha no coração de Ravana que teve o seu fim.

Rama, enterrou com muitas honras o pequeno animal, aquele que lhe dera a própria vida!

Depois disso, salvou sua princesa que, cheia de alegria, voltou com ele para a floresta.

Contam os antigos, que quando se tornou rei, Rama governou com a mais perfeita justiça, sendo por todos, muito amado!

PNL – arte e ciência da excelência a serviço da Educação

Sabemos que durante os primeiros anos de vida a personalidade da criança se forma a partir das impressões que recebe do meio-ambiente e das pessoas com quem convive. É de vital importância que observemos que tipo de informação a criança está recebendo nesta fase, preocupação esta que deve se estender por toda a adolescência, mesmo respeitando as escolhas individuais, através de uma atenção e orientação constantes. Uma atenção especial deve ser dada a linguagem que utilizamos como pais e educadores, que pode tanto auxiliar a construir a segurança pessoal e a auto-estima de uma criança ou adolescente, quanto destruí-la.

Todos somos capazes de nos lembrar, com um mínimo de esforço, de frases repetidas por nossos pais – muitas provavelmente herdadas de nossos avós – que contribuíram para nos tornar o que somos hoje. O modo como pensamos e agimos no mundo sofreu grande influência do tipo de linguagem que foi utilizada conosco por nossos pais e professores, durante a formação de nossa personalidade. Frases tais como “dinheiro não nasce em árvore” ou “mais fácil um rico entrar no reino do céu que um camelo passar pelo buraco de uma agulha”, por exemplo, podem ter influenciado no modo em que lidamos com esta energia de troca, o dinheiro. Assim como “você não faz nada direito” pode formar um indivíduo com pouca ou nenhuma segurança de sua própria capacidade, a frase “você fala pelos cotovelos”, repetida muitas vezes, pode transformar uma criança comunicativa em um adolescente sisudo ou tímido.

Em nosso diálogo com nossos filhos e mesmo como educadores, precisamos ficar atentos a linguagem de modo que ela reflita acima de tudo amor, respeito e aprovação. Todos são passíveis de erro e ninguém merece ser invalidado com frases do tipo “você não aprende mesmo” ou “você não toma jeito”, muito comum de serem ouvidas nos nossos lares ou nas escolas. Todo um sistema de crenças e de limitações auto-impostas podem nascer deste tipo de linguagem e sabotar o desenvolvimento individual.

Porém, esse é o menor dos problemas hoje. Desde a chegada da televisão nos nossos lares, a educação tem se tornado cada vez mais complexa, já que antes contávamos somente com a influência da família, da escola e do ambiente do bairro. Desde então temos de lidar com a pesada influência – quase um controle – que esta exerce sobre a criança. Tão logo os comunicadores se deram conta da presença de crianças diante da TV durante longas horas do dia, passaram a desenvolver programas voltados a esta faixa etária, seguidos pelos publicitários, que passaram a explorar a possibilidade de criar um novo seguimento de consumo.

Com o advento da Internet, a tarefa dos pais de vigiar o conteúdo aos quais seus filhos estão expostos, tornou-se quase impossível. E mesmo tendo sido abolidas da propaganda as tão faladas mensagens subliminares, sabemos o forte apelo que televisão e Internet exercem sobre crianças e adolescentes e mesmo adultos. Não há limites para o uso da máquina de comunicação a serviço de interesses pessoais escusos, influência mental e controle dos indivíduos, principalmente na política.

Com não uma, mas agora duas janelas abertas para um mundo complexo e em constante mudança, verdadeiros catálogos de possibilidades de experiências diversas e quase sem nenhum controle, nossos filhos estão se tornando cada vez mais vulneráveis a influências externas.

Porém, nem tudo está perdido. A televisão e a Internet – essas maravilhosas ferramentas que revolucionaram a comunicação mundial, estreitando distâncias geográficas e aproximando culturas – podem e devem ser utilizados como auxiliares na educação. Outra excelente ferramenta que pode ser utilizada no processo de formação da criança e do adolescente é a Programação Neurolingüística.

A Programação Neurolingüística é a arte e a ciência da excelência; arte porque cada pessoa tem um modo de agir próprio que não pode ser ensinado através de técnicas e ciência porque este modo particular pode ser mapeado em padrões através de um processo chamado modelagem. Isso significa que podemos determinar os padrões com que as pessoas obtêm resultados excepcionais ou “estado da arte” no que realizam e que pode ser aplicado no campo educacional e profissional, melhorando o nível de comunicação e transmissão com o objetivo de aperfeiçoar o desenvolvimento do indivíduo e propiciar uma aprendizagem mais rápida.

Robert Dilts, um dos maiores expoentes da PNL mundial criou um modelo simples que reúne noções de contexto, relacionamento, níveis de aprendizagem e posições perceptivas. O belíssimo gráfico denominado Níveis Neurológicos tem como núcleo o campo espiritual que é ao mesmo tempo o nível mais profundo, onde se originam nossas questões metafísicas e nossa direção no mundo, que contém tudo o que somos e fazemos, porém não se limita a isso. Na seqüência, temos a identidade, que é o sentido de si mesmo, o ser no mundo, seguido por nosso sistema de crenças, que podem se configurar tanto uma limitação quanto uma permissão; nossa capacidade, que é o conjunto de habilidades, talentos, comportamentos e estratégias, o comportamento que são as ações específicas que realizamos; e o meio ambiente, tudo que nos cerca e a qual reagimos. Este gráfico nos mostra que há um movimento de um para outro nível, do que se encontra na superfície até o mais nuclear. Deste modo, toda influência externa afeta o interior do sujeito bem como o sujeito tem a possibilidade através de uma mudança de crenças e atitudes, de influenciar o mundo em seu entorno.

Nesse sentido, o cultivar-se a si mesmo, reavaliar suas crenças limitantes e suas estratégias de vida faz parte da construção pessoal de um educador ou pai. Levando em conta que só se transmite aquilo que se sabe, somente se dá o que se tem ou ainda, que só se leva o outro aonde se foi em si mesmo, a PNL torna-se mais uma excelente ferramenta de desenvolvimento pessoal para indivíduos que tem como missão a educação e orientação. Nunca devemos perder de vista que somos canais de transmissão e faróis na trajetória de cada uma das crianças e dos jovens cuja jornada atravessa nossos caminhos.

Portanto, mais importante do que todas essas ferramentas é a escolha pela freqüência na qual nos sintonizamos e um respeito aos princípios humanos básicos. Esta atitude aliada a estas ferramentas, aplicadas à educação e ao relacionamento dos pais com seus filhos, podem gerar grandes transformações no mundo e repercutir na vida de muitas gerações.

(Malu Aguiar – artista plástica e consultora em criatividade, co-autora do livro “Crimes na Rede – O perigo que se esconde no computador” – www.consciencianarede.com)

O Nascimento de Ganesha

Foi há muito tempo atrás que nasceu Ganesha – o deus que remove os obstáculos mais pesados, que ilumina os caminhos mais obscuros, e que percorre os labirintos mais tortuosos. Enfim, é aquele deus com uma simpática cabeça de elefante, que é louvado quando uma pessoa vai começar uma nova atividade ou quando está com algum problema difícil de resolver. Dizem que ele vai abrindo passagem com sua tromba, e delicadamente remove tudo aquilo que é muito pesado para as pessoas em geral. Dizem também que ele se locomove pelo mundo montado num pequeno rato. E esse ratinho, que é o seu meio oficial de transporte, escolhe os melhores caminhos, abre atalhos, encontra boas saídas, e, por isso, o faz chegar mais depressa onde os outros sempre demoram muito para chegar.
Com sua cabeça de elefante, ele faz lembrar das qualidades desse animal, que na Índia, é considerado um ser sagrado. Ele é imponente, forte, gracioso, simpático e, acima de tudo, muito bonito. E é por esse motivo que dizem que a cabeça de elefante no corpo humano representa uma consciência luminosa. São os desejos, os pensamentos e os sentimentos divinos que podem se expressar em qualquer ser humano. Com esse corpo tão particular, esse deus lembra para todos os seus devotos que a união entre o divino e o humano é uma realização alegre, bem-humorada e que traz muita força.

Por ter uma aparência tão curiosa, até os mais sábios, alguma vez na vida, já perguntaram como aquela cabeça de elefante foi parar num corpo de gente. E, certa vez, quando um rei muito instruído fez essa pergunta a um grande sábio, que era um famoso contador de histórias, que conhecia absolutamente todas as histórias de todos os deuses de todos os tempos, a resposta foi a seguinte:

“Foi há muito tempo atrás que Parvati, a linda deusa da montanha, trouxe Ganesha ao mundo. Naquela ocasião, a deusa encontrava-se numa situação desagradável. A situação era a seguinte: Shiva, seu amado, sempre entrava em seu palácio em momentos inconvenientes. Isso acontecia porque os dois guardiões da entrada do palácio de Parvati eram na verdade amigos de Shiva. Era esse o problema da deusa, que, de vez em quando, era pega de surpresa em sua intimidade.

Acontece que Parvati possuía maravilhosos poderes. Ela era filha de Himalaya, o deus de toda aquela enorme cordilheira de montanhas onde os grandes yogues íam realizar suas práticas. E, além disso, na época em que desejava conquistar o coração de seu amado, ela também praticou toda forma de yoga, ritual e austeridades, a ponto de adquirir o poder de criar tudo aquilo que bem quisesse. Desejando impedir que seu amado esposo continuasse a entrar em seu palácio a qualquer momento, ela entendeu que a melhor coisa a fazer era substituir os guardiões do portão.

Eis que Parvati gerou um filho sem o conhecimento de Shiva. Como era uma deusa poderosíssima, criou a partir de um pouco de terra, um jovem vistoso, forte e fiel. Era um rapaz tão lindo quanto ela, com uma força inacreditável e extremamente dedicado a realizar os desejos da mãe. Daquele momento em diante, o portão do palácio de Parvati passou a ter um novo guardião. O palácio tinha agora uma entrada intransponível. Ninguém podia ultrapassar aquela porta sem a permissão daquele belo jovem, que cuidava da privacidade da mãe com um pesado porrete na mão.

Um belo dia, lá estava Ganesha. E do outro lado, vinha Shiva, acreditando, como sempre, que teria sua passagem garantida. No início, olharam um para o outro. No mesmo instante, perguntaram quem era quem. Depois de dizerem seus nomes, disseram ao mesmo tempo: “Não te conheço!”, “Sai da frente”, “Não saio”, “Vou entrar!”, “Não vai!”. E estava iniciado um dos maiores combates que o mundo já teve.

Foi uma luta que fez tremer o planeta inteiro. Os estrondos foram ouvidos em toda parte. Os gritos eram assustadores. Shiva recebeu a ajuda de suas tropas, com muitas armas. Parvati, ao saber disso, com seu poder grandioso, concedeu a Ganesha um número ainda maior de armas. Era uma guerra que parecia durar muitos anos. Muitos homens e muitos deuses foram até lá para saber o que estava acontecendo. Até que o deus Brahman quis interferir e teve sua barba arrancada pelo bravo Ganesha. Shiva pediu então a ajuda de Vishnu, que também foi ferido com o porrete. Nesse momento, Vishnu disse a Shiva que era necessário um plano para deter aquele forte guardião.

Assim foi feito. Enquanto Visnhu atacava o bravo guardião pela frente com sua arma, que era um disco cortante, Shiva veio por trás e cortou a cabeça de Ganesha com seu tridente. A cena final da batalha foi esta: Ganesha caído no chão, sem cabeça, enquanto Shiva e os outros deuses, cobertos de sangue, perguntavam assustados quem era aquele valente herói, mais poderoso do que qualquer um deles.

Parvati veio até a entrada do palácio, e quando viu seu filho ali caído, primeiramente ficou triste e depois furiosa. Comunicou a Shiva tudo o que havia acontecido, desde o nascimento do jovem, que também era filho dele. Com essa notícia tudo mudou: Shiva deveria fazer aquele corpo viver novamente. Com esse objetivo, ele juntou seus poderes aos de Brahman e de Vishnu. Assim, os três iriam trazer novamente a vida para aquele jovem vistoso, forte e fiel. Mas então perceberam que a cabeça não estava mais lá. No calor da batalha, ela havia desaparecido. A solução encontrada foi dar uma nova cabeça a ele.

Naquele mesmo instante, diante da tristeza e da fúria de Parvati, Shiva disse que daria para Ganesha a cabeça do primeiro ser vivo que encontrasse. Eis que surge, vagarosa e graciosamente, um grande elefante. E foi assim que Ganesha tornou-se o deus com cabeça de elefante”.

Essa foi a história contada pelo grande sábio, que, por fim, explicou como Ganesha se transformou num deus tão importante: depois de receber a nova cabeça, ele recebeu também as bênçãos de Shiva, que o reconheceu como seu filho. Shiva também concedeu a ele as magníficas tropas, fazendo de Ganesha um deus ainda mais poderoso. Foi naquele momento que ele ficou conhecido como “Senhor das tropas”. E, sendo o deus que guardou de forma tão heróica a frente do palácio de sua mãe, é reconhecido até hoje como o deus que deve estar à frente de tudo. É por essa razão que ele está relacionado às entradas e aos começos, que para terem boa sorte, devem contar com a graça do deus. E desde aquele tempo, ele deve ser o primeiro deus a ser venerado nas festas e nos rituais, antes de qualquer outro.

(João Barbosa Gonçalves é professor de sânscrito e seu site é www.om.pro.br)

Psicologia dos Contos de Fadas

Por Paulo Urban

ERA UMA VEZ uma criança que adorava ouvir histórias… ela nada mais esperava que viver cada momento, mas a cada passo dado neste seu mundo de sonhos e fantasia, pouco a pouco, sem o perceber, ia encontrando um sentido para a vida…

Infelizmente, muitos pais desejam ver seus filhos com as cabeças funcionando racionalmente como as suas, e acreditam que a maturidade deles dependa exclusivamente do ensinamento lógico oferecido pela maioria das escolas que, via de regra, em nossa sociedade moderna, nada mais fazem que repassar um conteúdo pedagógico desprovido de maiores significados para a vida. Esquecem-se de explorar os sentimentos como fundamental ingrediente para a formação do caráter e, ainda que bem alfabetizem, desconsideram os contos de fadas como se estes só gerassem confusões quanto aos conceitos sólidos de realidade que devem ser ensinados às crianças. Pecam gravemente por isso.

Afinal, a sabedoria não é coisa que nasça pronta como a deusa Palas Atena, que, inteiramente formada, pulou fora da cabeça de Zeus; é antes algo delicado, que se constrói desde os tenros anos da infância, e que passa necessariamente por um estágio primevo, irracional, de extraordinário potencial que só se desdobrará convenientemente num bem explorado e maduro psiquismo. Obrigatoriamente, isto nos leva à necessidade de lidar com nossos sentimentos. O mundo interior, desconhecido pela consciência intelectualizada, encerra segredos legítimos, guarda metade de nós mesmos, e sua assimilação é imprescindível para todo aquele que deseje conhecer-se melhor ou que esteja buscando respostas honestas para os enigmas da existência.

Neste particular, os contos de fada cumprem relevante papel. São expressão cristalina e simples de nosso mundo psicológico profundo. De estrutura mais simples que os mitos e as lendas, mas de conteúdo muito mais rico que o mero teor moral encontrado na maioria das fábulas, são os contos de fada a fórmula mágica capaz de envolver a atenção das crianças, despertando-lhes (idem nos adultos sensíveis) sentimentos e valores intuitivos que clamam por um desenvolvimento justo, tão pleno quanto possa vir a ser o do prestigiado intelecto.

Em essência, os contos de fada podem ser vistos como pequenas obras de arte, capazes que são de nos envolver em seu enredo, de nos instigar a mente e comover-nos com a sorte de seus personagens. Causam impacto em nosso psiquismo porque tratam das experiências cotidianas, e permitem que nos identifiquemos com as dificuldades ou alegrias de seus heróis, cujos feitos narrados expressam, em suma, a condição humana frente às provações da vida. Não fossem assim tão verdadeiros ao simbolizar nosso caminho pessoal de desenvolvimento, apresentando-nos as situações críticas de escolha que invariavelmente enfrentamos, não despertariam nem sequer o interesse nas crianças que buscam neles, além da diversão, um aprendizado apropriado à sua segurança. Neste processo, cada criança depreende suas próprias lições dos contos de fadas que ouve, sempre consoante seu momento de vida, e extrai das narrativas, ainda que inconscientemente, o que de melhor possa aproveitar para aí ser aplicado. Oportunamente, pede que seus pais lhes contem de novo esta ou aquela história, quando revive sentimentos que vão sendo trabalhados a cada repetição do drama, ampliando assim os significados aprendidos ou substituindo-os por outros mais eficientes, conforme as necessidades do momento.
Desde a remotíssima antigüidade (especialistas apontam para uma tradição oral que começa há mais de 25.000 anos), a relação de qualquer criança com o mundo sempre dependeu dos relatos míticos e religiosos, cujos elementos básicos constituintes encontram-se espalhados por uma miríade de células narrativas de caráter mágico, as quais denominamos contos de fadas.

Platão, século V a.C., no Livro III da República, propunha educar seus cidadãos por um mito próprio que lhes explicasse a origem de suas castas; em outros escritos informa que em seu tempo era função das mulheres narrar às crianças as alegorias, às quais chamou de mythoi. Data histórica mais antiga nos leva diretamente à fonte do popular tema dos “Dois Irmãos”, um dos quais geralmente é bom, o outro nem tanto, encontrado em quase todos os folclores. Ela se acha escrita no papiro egípcio Orbiney (nome de seu antigo possuidor) datado de 1210a.C., que se encontra completo e preservado no Museu Britânico. Relata as desavenças entre dois irmãos, projetadas na dupla de deuses Anúbis e Bata, que vivem brigando entre si, mas dependem mutuamente um do outro. Entretanto, a ocorrência desta história parece ser ainda mais arcaica.

Assim como os mitos e as lendas, os contos de fada e as fábulas provêm do alvorecer da cultura humana e acham-se espalhados por todas as civilizações. Os registros ocidentais mais antigos nos levam a Esopo, herói popular da Trácia, a quem se reputa o ofício de ter sido no século VI a.C. um proeminente contador de fábulas. Aristóteles, em 330 a.C., relata que Esopo, certa feita, como advogado de defesa de um político corrupto teria se valido de uma de suas histórias, “A raposa e o ouriço”, para defender o seu cliente. A raposa estava tomada por pulgas, e o ouriço propôs-se a lhe tratar. Com receio de se machucar ainda mais, ela argumenta: “Sr. Ouriço, deixe estar, se me retira estas pulgas já gordinhas, que nem me chupar podem mais, logo outras sedentas por sangue ocuparão seu lugar”. Ao que completava dizendo aos juízes que se condenassem à morte o réu já enriquecido, outros não tão ricos, mas ávidos para roubar, viriam a ocupar sua cadeira!

Esopo não escrevia suas fábulas. Até surgirem as duas coletâneas mais antigas deste gênero, datadas do ano 1 d.C., sua transmissão era exclusivamente oral. A primeira delas foi escrita em latim por Fedro, que traduziu Esopo para os romanos; a outra, em grego, é da autoria de Babrius.

A primeira coleção de contos, porém, com motivos do folclore europeu, denominada Gesta Romanorum, só surgiria no século XIV, escrita em latim. Precedeu em poucos anos As Mil e uma Noites, famosos contos árabes de magia e aventura, de origem persa, que datam dos séculos XIV a XVI. Tudo começa com a desilusão do califa Shahryar ao descobrir que seu irmão Shazeman era traído pela esposa. Resolve então que nunca deixaria que consigo acontecesse tamanha desonra, e decide dormir com mulheres sempre virgens para no dia seguinte entregá-las a seus soldados para a morte. Até que a corajosa Sherazade, filha de seu principal vizir, contrariando os conselhos de seu pai, oferece-se para o califa. Propondo-se a evitar maior matança, passa a contar-lhe todas as noites, após se amarem, uma história que ela sempre interrompia em seu ponto culminante, fazendo com que seu amo a poupasse até a noite seguinte, quando então, continuava a narrativa.

As Mil e uma Noites têm por pano de fundo o apogeu do mundo árabe alcançado durante o reinado de Harum-el-Raschid, quinto califa da dinastia dos Abácidas, século VIII d.C. Aladim e o gênio da lâmpada, Simbá, o marujo, e Ali Babá são alguns dos personagens que por três anos mantiveram viva Sherazade, até que, por fim, estando o califa completamente apaixonado por ela e transformado interiormente pela beleza de suas histórias, liberta-se de sua depressão, suspende a pena, e a pede em casamento. Os contos das “Noites Árabes” haviam servido a el-Raschid como verdadeira terapia! A propósito, este é o procedimento adotado desde a antigüidade pela medicina hindu, chamada Ayurveda, na qual os pacientes são convidados a meditar sobre contos de fadas para que suas mentes se purifiquem, condição prévia para que qualquer cura seja alcançada.

O título dado às histórias de Sherazade, assim como o modelo adotado por Bocaccio (1313-1375) no Decameron, bem serviram ao italiano Giovanni Straparola (1480-1557) que imaginou uma reunião de jovens, isolados do mundo, entretidos em suas narrativas de fadas. O conjunto, batizado por Piacevoli Notti (Noites de Prazer), foi publicado de 1550 a 1553. Muitas de suas idéias seriam depois adaptadas pelo francês Charles Perrault (1628-1703), até nossos dias lembrado por seus Contos da Mamãe Gansa, que vieram a público em 1697 trazendo uma versão de “Chapeuzinho Vermelho” em que o lobo sai vitorioso da história, após haver jantado a vovó e comido em seguida a menina de sobremesa. O literato justificava-se dizendo que sua narrativa era de valor eminentemente moral, e que as crianças bem deviam saber o preço da desobediência aos pais. Foi seu contemporâneo Jean de La Fontaine (1621-1695), imortalizado por suas Fábulas, publicadas entre 1668 e 1694, de cunho igualmente moral, que passaram a ser contadas nas escolas da época e permanecem populares até hoje. O alemão Gotthold Lessing, por considerar as sátiras de La Fontaine muito leves, em 1759 edita seu Fabels (Fábulas), cujo teor trazia lições bem mais severas que as da moral francesa.

Somente no século seguinte, porém, é que o jardim da infância floresceria definitivamente com a paciente pesquisa feita pelos irmãos Grimm na Alemanha. Os filólogos Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), lingüistas e folcloristas, colecionaram contos de encantamento por toda parte da Europa, e lançaram de 1812 a 1815, em dois tomos, Os Contos de Fadas dos Irmãos Grimm, que, desde então, vêm sendo adaptados em quase todos os idiomas, e transformados em elemento essencial da literatura infantil. Jacob era o mais intelectualizado dos irmãos, mas Wilhelm era quem detinha a verve da poesia; juntos chegaram a editar 210 histórias, maior parte delas encontrada nos dois volumes originais. Em 1983, descobriu-se um manuscrito com conto inédito na coleção dos Grimm.

Outro autor de novelas, peças de teatro, roteiros de viagens, memórias e poesias, consagrado por seus contos de fada, foi o dinamarquês Hans Christian Andersen (1802-1875), filho de um humilde sapateiro e de uma iletrada mãe, mulher supersticiosa que o influenciou bastante por passar-lhe a tradição oral do campo. Em 1835 publicou Histórias Contadas às Crianças, com seus quatro primeiros contos. Até 1872, produziu 168 histórias, logo traduzidas em diversos países, comumente publicadas em séries de quatro narrativas por livro. Combinando à fantasia infantil sua aguçada sabedoria, encantou igualmente o público adulto, repetindo a mística do fenômeno provocado pelos irmãos Grimm; hoje sua obra acha-se traduzida em mais de 100 línguas.

Ainda no século XIX, os românticos alemães Goethe e Ernst Hoffman , e o inglês Oscar Wilde são exemplos dos que também se dedicaram à literatura infantil. E citemos com orgulho Monteiro Lobato (1882-1948) que, preocupado em edificar os jovens, produziu extensa literatura infanto-juvenil de cunho pedagógico, adaptando para as crianças brasileiras as Fábulas de Esopo.

Mas por que nos impressionam tanto os contos de fada? Por certo, não apenas pelos expoentes citados que se dedicaram à sua compilação, visto que tais contos sempre foram populares como tradição oral, mas, antes, porque suas histórias são instigantes. Não há como alcançar completamente seu sentido em termos puramente intelectuais, fato que nos desperta a percepção intuitiva.

A fantasia, irracional a ponto de permitir que a vovó engolida pelo lobo mau permaneça viva em sua barriga até ser salva, ou que Bela Adormecida durma enfeitiçada um sono de cem anos, e João suba num pé de feijão até alcançar no céu o castelo de um gigante, justamente pelo inverossímil que expõe, provoca uma reviravolta em nosso mundo psíquico que, estimulado, aguça-se na tentativa de compreendê-la. E não há como explicá-la pelos padrões da razão metódica. A história de fadas é per si sua melhor explicação, do mesmo modo que as obras de arte encerram aspectos que fogem do alcance do intelecto, já que suscitam emoções capazes de comover os que diante delas se colocam. O significado desses contos está guardado na totalidade de seu conjunto, perpassado pelos fios invisíveis de sua trama narrativa. Claro que, diante desse mistério, muitas formas de abordá-lo são possíveis e igualmente válidas, posto que acrescentam luz à sua compreensão.

O psicanalista austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990), por exemplo, em seu precioso estudo Usos do encantamento: significado e importância dos contos de fadas (em Português, A Psicanálise dos Contos de Fada, ed. Paz e Terra), argumenta: “Os psicanalistas freudianos se preocupam em mostrar que tipo de material reprimido ou inconsciente está subjacente nos mitos e contos de fada, e como estes se relacionam aos sonhos e devaneios. Já os junguianos, ele continua, frisam em acréscimo que as figuras e os acontecimentos destas histórias estão de acordo com fenômenos arquetípicos, e simbolicamente sugerem a necessidade de se atingir um estado mais elevado de autoconfiança, uma renovação interna conseguida à custa de forças inconscientes que se tornam disponíveis ao indivíduo”.

O próprio Jung disse certa vez que “nos contos de fadas melhor podemos estudar a anatomia comparada da psique”. Quis dizer com isso, explica-nos sua discípula Marie Louise von Franz em Interpretação dos Contos de Fadas (ed. Paulus) que os contos de fadas espelham a estrutura mais simples, ou o “esqueleto” da psique, e que suas muitas peças acabam por fundir-se, compondo os grandes mitos que expressam toda uma produção cultural mais elaborada. O estudioso clássico E. Schwizer demonstra como, por exemplo, o mito de Hércules foi sendo aos poucos espontaneamente “montado” a partir de histórias separadas, todas temas centrais de seus respectivos contos de fadas.

Fenômeno semelhante ocorre, aponta-o o historiador Homero Pimentel, no campo da literatura clássica, onde se registra a corriqueira absorção de temas arquetípicos encontráveis nos contos de fadas, como a figura típica da madrasta má que ordena a seu servo que mate Branca de Neve, bem aproveitada por Shakespeare em sua peça Péricles, Príncipe de Tiro. E talvez o literato britânico não alcançasse tanto sucesso não fosse seu costume de ler contos de fadas.

Branca de Neve, a propósito, cuja narrativa remonta há mais de mil anos, permite inúmeras interpretações à luz da psicanálise ou da psicologia junguiana. Prefiro ver neste conto, contudo, uma das jóias raras produzidas pelo saber dos alquimistas. Na alegoria de “Branca de Neve” estão depositados inúmeros segredos do ocultismo. A rainha, que morre ao parir, fora bem clara em seu desejo: “Quero ter uma filha de pele alva como a neve, lábios vermelhos como o sangue, e cabelos tão negros quanto a noite!” É como começam as versões originais deste fabuloso conto. Implícita está, desde o início, a alusão às três grandes fases da transmutação alquímica: albedo (o branco), rubedo (o vermelho) e nigredo (o negro). Expulsa de seu castelo aos 7 anos, a menina é abandonada pelo servo na floresta; miticamente, este é o lugar desconhecido onde primeiro nos perdemos na busca da verdade. A casa dos 7 anões representa o núcleo orientador capaz de nos levar de volta ao caminho iniciático dos alquimistas. E os anões, todos mineradores da caverna, representam a necessidade de trabalharmos nossas entranhas em busca do ouro filosofal. Na alegoria do 7 acham-se velados os 7 metais alquímicos, bem como seus 7 planetas regentes, também os 7 degraus para o preparo da Pedra Filosofal. A madrasta, por sua vez, traduz arquetipicamente os perigos do caminho de provações, revelando-se como bruxa perdida (por estar presa à vaidade) na busca da beleza eterna, enganada quanto à natureza do “Elixir da Longa Vida”. Ela morrerá em desgraça, e Branca de Neve, após pagar o preço de sua ingenuidade, acabará por renascer de sua morte simbólica nos braços de seu príncipe encantado, a representar a coroação dos ideais da alma. Mas a complexidade desta análise alquímica nos levaria a outra matéria; paremos por aqui. Parafraseando Michael Ende, autor da saga A História sem Fim: “Esta é uma outra história e terá de ser contada em outra ocasião…”

“E quanto àquela criança que adorava ouvir histórias? O mais importante que resta disso tudo é que nunca esqueçamos a lição… crianças, jovens ou adultos, no mundo das fadas todos seguimos encantados e… FELIZES PARA SEMPRE !”

P.S: Tão logo termino de escrever este texto, a um mês da publicação, recebo nota do falecimento de Maria Clara Machado. Agradeço a ela; felizes das crianças que, como eu, sabem brincar de Fantasminha Pluft…

(Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento e Acunpunturista – Editor-chefe da Revista Nova Consciência – Site: www.amigodaalma.com.br e e-mail: urban@paulourban.com.br)