O Nascimento de Ganesha

O Nascimento de Ganesha

Foi há muito tempo atrás que nasceu Ganesha – o deus que remove os obstáculos mais pesados, que ilumina os caminhos mais obscuros, e que percorre os labirintos mais tortuosos. Enfim, é aquele deus com uma simpática cabeça de elefante, que é louvado quando uma pessoa vai começar uma nova atividade ou quando está com algum problema difícil de resolver. Dizem que ele vai abrindo passagem com sua tromba, e delicadamente remove tudo aquilo que é muito pesado para as pessoas em geral. Dizem também que ele se locomove pelo mundo montado num pequeno rato. E esse ratinho, que é o seu meio oficial de transporte, escolhe os melhores caminhos, abre atalhos, encontra boas saídas, e, por isso, o faz chegar mais depressa onde os outros sempre demoram muito para chegar.
Com sua cabeça de elefante, ele faz lembrar das qualidades desse animal, que na Índia, é considerado um ser sagrado. Ele é imponente, forte, gracioso, simpático e, acima de tudo, muito bonito. E é por esse motivo que dizem que a cabeça de elefante no corpo humano representa uma consciência luminosa. São os desejos, os pensamentos e os sentimentos divinos que podem se expressar em qualquer ser humano. Com esse corpo tão particular, esse deus lembra para todos os seus devotos que a união entre o divino e o humano é uma realização alegre, bem-humorada e que traz muita força.

Por ter uma aparência tão curiosa, até os mais sábios, alguma vez na vida, já perguntaram como aquela cabeça de elefante foi parar num corpo de gente. E, certa vez, quando um rei muito instruído fez essa pergunta a um grande sábio, que era um famoso contador de histórias, que conhecia absolutamente todas as histórias de todos os deuses de todos os tempos, a resposta foi a seguinte:

“Foi há muito tempo atrás que Parvati, a linda deusa da montanha, trouxe Ganesha ao mundo. Naquela ocasião, a deusa encontrava-se numa situação desagradável. A situação era a seguinte: Shiva, seu amado, sempre entrava em seu palácio em momentos inconvenientes. Isso acontecia porque os dois guardiões da entrada do palácio de Parvati eram na verdade amigos de Shiva. Era esse o problema da deusa, que, de vez em quando, era pega de surpresa em sua intimidade.

Acontece que Parvati possuía maravilhosos poderes. Ela era filha de Himalaya, o deus de toda aquela enorme cordilheira de montanhas onde os grandes yogues íam realizar suas práticas. E, além disso, na época em que desejava conquistar o coração de seu amado, ela também praticou toda forma de yoga, ritual e austeridades, a ponto de adquirir o poder de criar tudo aquilo que bem quisesse. Desejando impedir que seu amado esposo continuasse a entrar em seu palácio a qualquer momento, ela entendeu que a melhor coisa a fazer era substituir os guardiões do portão.

Eis que Parvati gerou um filho sem o conhecimento de Shiva. Como era uma deusa poderosíssima, criou a partir de um pouco de terra, um jovem vistoso, forte e fiel. Era um rapaz tão lindo quanto ela, com uma força inacreditável e extremamente dedicado a realizar os desejos da mãe. Daquele momento em diante, o portão do palácio de Parvati passou a ter um novo guardião. O palácio tinha agora uma entrada intransponível. Ninguém podia ultrapassar aquela porta sem a permissão daquele belo jovem, que cuidava da privacidade da mãe com um pesado porrete na mão.

Um belo dia, lá estava Ganesha. E do outro lado, vinha Shiva, acreditando, como sempre, que teria sua passagem garantida. No início, olharam um para o outro. No mesmo instante, perguntaram quem era quem. Depois de dizerem seus nomes, disseram ao mesmo tempo: “Não te conheço!”, “Sai da frente”, “Não saio”, “Vou entrar!”, “Não vai!”. E estava iniciado um dos maiores combates que o mundo já teve.

Foi uma luta que fez tremer o planeta inteiro. Os estrondos foram ouvidos em toda parte. Os gritos eram assustadores. Shiva recebeu a ajuda de suas tropas, com muitas armas. Parvati, ao saber disso, com seu poder grandioso, concedeu a Ganesha um número ainda maior de armas. Era uma guerra que parecia durar muitos anos. Muitos homens e muitos deuses foram até lá para saber o que estava acontecendo. Até que o deus Brahman quis interferir e teve sua barba arrancada pelo bravo Ganesha. Shiva pediu então a ajuda de Vishnu, que também foi ferido com o porrete. Nesse momento, Vishnu disse a Shiva que era necessário um plano para deter aquele forte guardião.

Assim foi feito. Enquanto Visnhu atacava o bravo guardião pela frente com sua arma, que era um disco cortante, Shiva veio por trás e cortou a cabeça de Ganesha com seu tridente. A cena final da batalha foi esta: Ganesha caído no chão, sem cabeça, enquanto Shiva e os outros deuses, cobertos de sangue, perguntavam assustados quem era aquele valente herói, mais poderoso do que qualquer um deles.

Parvati veio até a entrada do palácio, e quando viu seu filho ali caído, primeiramente ficou triste e depois furiosa. Comunicou a Shiva tudo o que havia acontecido, desde o nascimento do jovem, que também era filho dele. Com essa notícia tudo mudou: Shiva deveria fazer aquele corpo viver novamente. Com esse objetivo, ele juntou seus poderes aos de Brahman e de Vishnu. Assim, os três iriam trazer novamente a vida para aquele jovem vistoso, forte e fiel. Mas então perceberam que a cabeça não estava mais lá. No calor da batalha, ela havia desaparecido. A solução encontrada foi dar uma nova cabeça a ele.

Naquele mesmo instante, diante da tristeza e da fúria de Parvati, Shiva disse que daria para Ganesha a cabeça do primeiro ser vivo que encontrasse. Eis que surge, vagarosa e graciosamente, um grande elefante. E foi assim que Ganesha tornou-se o deus com cabeça de elefante”.

Essa foi a história contada pelo grande sábio, que, por fim, explicou como Ganesha se transformou num deus tão importante: depois de receber a nova cabeça, ele recebeu também as bênçãos de Shiva, que o reconheceu como seu filho. Shiva também concedeu a ele as magníficas tropas, fazendo de Ganesha um deus ainda mais poderoso. Foi naquele momento que ele ficou conhecido como “Senhor das tropas”. E, sendo o deus que guardou de forma tão heróica a frente do palácio de sua mãe, é reconhecido até hoje como o deus que deve estar à frente de tudo. É por essa razão que ele está relacionado às entradas e aos começos, que para terem boa sorte, devem contar com a graça do deus. E desde aquele tempo, ele deve ser o primeiro deus a ser venerado nas festas e nos rituais, antes de qualquer outro.

(João Barbosa Gonçalves é professor de sânscrito e seu site é www.om.pro.br)

1 Comentário

  1. Helena
    Fantástico! Gostaria de contato, tenho planos e projetos e gostaria de saber seu interesse em dar uma palestra! Grata Helena
    Reply 22 de fevereiro de 2016 at 10:53

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