Tag: Blog

Agora começa o Yoga – Por Madu Cabral

YOGA PARA CRIANÇAS

A prática ajuda no desempenho escolar dos pequenos
Publicada em 09/11/2007 – Prana Yoga Journal

Por Madu Cabral

A vida corrida, o estresse, a hiperatividade e todos os outros hábitos prejudiciais da vida moderna são impostos às nossas crianças desde o nascimento. Falta tempo para aprender quem realmente são, investigar o tão aclamado autoconhecimento, já que desde cedo os pequenos estão sendo preparados para o futuro, para serem profissionais bem-sucedidos. Com uma agenda tão apertada quanto a nossa, as crianças dividem seu tempo entre escola, aulas de línguas, atividades físicas… A infância passa. Nesse ritmo, as crianças transformam-se em adultos já acostumados a vida agitada, achando que devem viver para um dia ter uma “vida melhor”. A vida já é suficientemente incrível agora, e é isso que o Yoga pode ensinar.

A educadora infantil e praticante de Yoga Maria João Leser explica que “um dos conceitos mais modernos de educação, o construtivismo, afirma que o conhecimento é construído pela criança a partir da interação dela com o mundo. É lógico que essa interação se dá pelo corpo, seu principal instrumento de aprendizado. Quanto mais a criança tiver o domínio desse instrumento, conhecer e saber utilizá-lo, mais ela será capaz de construir o seu próprio conhecimento”. O Hatha Yoga é um sistema milenar que ensina, em primeira instância, exatamente isso. É nosso “manual do proprietário”, explica como usar o corpo para ele ser uma ferramenta para nossa evolução.

As primeiras aulas de Yoga normalmente nos fazem lembrar que algumas posturas fizeram parte de nossa infância. Quem nunca brincou de virar de cabeça para baixo, de se equilibrar sobre as mãos ou de sugar a barriga para dentro para imitar um esqueleto? Esquecemos dessas habilidades e, como deixamos de praticá-las, enrijecemos e perdemos a capacidade de fazê-las. O professor Maurício Salem do Yoga Nataraja (RJ), que dá curso de formação para instrutores de Yoga para criança e desenvolve projetos para os pequenos, explica que o Yoga cria bases de uma filosofia para uma vida saudável. “Se praticássemos direitinho desde sempre, talvez não precisássemos mandar tanto o corpo ao conserto, só de vez em quando”, conta o professor. A prática de Yoga para as crianças, além de manter a flexibilidade inata do corpo e desenvolver outras habilidades corporais, estimula concentração, calma e autoconhecimento, qualidades essenciais para um desenvolvimento saudável.

Endireita essas costas!
O professor da Escola de Yoga Carmen Perez, João Soares, que dá aulas para crianças há mais de 13 anos e desenvolveu uma metodologia especial de Yoga com histórias para os pequenos, esclarece que na infância o corpo está em pleno desenvolvimento e a criança está cada vez mais aprendendo a lidar com ele. “Os asanas desempenham um trabalho riquíssimo, ajudando a criança na apropriação dos seus movimentos e atuando em todo conjunto de músculos de forma a aumentar sua força, irrigação e alongamento”. Os benefícios físicos de uma prática adaptada fornecem argumentos suficientes para qualquer educador – seja qual for o método que segue – inserir o Yoga na vida dos pequenos:

• desenvolve a coordenação motora;
• melhora a postura corporal criando estabilidade,
equilíbrio, força, alongamento e flexibilidade;
• melhora do fluxo de energia vital pelo corpo;
• fortalece a musculatura;
• auxilia o funcionamento dos órgãos e glândulas;
• fortalece o sistema imunológico.

Yoga melhora o desempenho na escola
Segundo a professora Maria João, esses benefícios criam ótimas condições para melhor rendimento escolar da criança. “A concentração depende também de tônus muscular e um bom condicionamento postural. A criança que não tem essas habilidades desenvolvidas pode ter de usar parte do cérebro só para conseguir se manter sentada na cadeira durante as aulas, em vez de concentrar a atenção no que está sendo ensinado”.

Meditação na estrela
Há controvérsias, entre os professores, a respeito da idade ideal para o início das práticas de meditação e o contexto em que ela deve ser passada, mas alguns exercícios de relaxamento e visualizações podem ser um bom começo. “As crianças não conseguem ficar tempo suficiente em uma mesma posição”, explica Mel Vieira de Souza, professora de Iyengar Yoga e de Yoga para crianças no Yoga Dham, em São Paulo. A prática a seguir é utilizada pelo professor João com suas turminhas: Sentamos em postura confortável e começamos a imaginar que a noite vai chegando, gostosa e fresca. No céu surge a primeira estrela, mas esta estrela é diferente: é a nossa estrela. Toda vez que precisamos de força, coragem e saúde, é só procurarmos por ela. Encontre cada um a sua estrela e imagine que ela vai jogando toda sua luz, brilhante, dentro do seu coração. Nosso corpo fica totalmente iluminado. Estamos tão fortes que podemos distribuir nossa luz a todos que precisam. Imaginamos que, agora, voamos por cima das casas e em cada uma delas jogamos um pouco de luz e que isso trará alegria e felicidade para todos. Depois de cumprida nossa missão, ficamos tranqüilamente em silêncio, sentindo o brilho e a força que está dentro de nós.

Maurício, que dá aulas de Yoga em escolas regulares no Rio de Janeiro, conta que, hoje em dia, o índice de distúrbios como hiperatividade, bipolaridade e déficit de atenção diagnosticado por médicos tem crescido. “Quem convive com educadores sabe que estes problemas têm reflexo direto em sala de aula, com o aumento de crianças sendo diagnosticadas pelo simples fato de não conseguirem se concentrar e comportarse em sala de aula”, acrescenta o professor. A ansiedade também pode atrapalhar o aprendizado e a concentração. Quem não se lembra de ter estudado tudo e ter um “branco” na hora da prova por causa do nervoso? “Eu me lembro disso acontecendo comigo quando jovem” conta a professora de Yoga Renata Sumar Gaertner, dona da escola Jai Vida, em Belo Horizonte, que dá aulas para crianças e bebês há mais de 20 anos. “Eu não fazia nada visível nessa hora. Apenas procurava respirar muito e estar calma para realizar qualquer tipo de avaliação. Algumas amigas começaram a pedir para que eu passasse a minha calma para elas. E eu falava: ‘Respire fundo e sinta a sua respiração que, com certeza, o que você sabe está aí dentro’. Dava certo!”

Cabecinhas saudáveis
A boa postura é natural nas crianças. Normalmente começamos a enrijecer e adquirir má postura conforme crescemos. A prática de asanas fortalece os músculos do abdome e das costas, ajudando na sustentação da coluna e na manutenção dessa postura saudável. “Isso reflete totalmente na oxigenação do cérebro e na atitude interna”, alerta o professor João. É importante avaliarmos que é no corpo que registramos nossas primeiras impressões, como as sensações de medo, prazer e de dor. Nele estamos constantemente criando, por meio desses registros, memórias que interferirão de maneira positiva ou negativa em toda nossa vida. Por meio do trabalho com próprio corpo, as crianças aprendem a lidar com suas emoções. “Uma criança que tem os ombros caídos e a coluna curvada pode ter uma conduta corporal que denota insegurança e atitude de autodefesa”, exemplifica Soares. “Quando ocorre a mudança corporal pelas posturas nas quais a criança expande o peito, ela desenvolve uma nova postura interna de força e ousadia. Psicologicamente, ela também incorpora esta força e ousadia em seu universo emocional”, ensina ele.

O início de tudo
“Inicialmente são expostos os asanas, pois eles constituem o primeiro passo do Hatha Yoga. Os asanas são praticados para conquistarem-se postura firme, saúde e flexibilidade” – Hatha Yoga Pradipika, I:17 Em seu livro Yoga e Educação para as Crianças (Yoga Publications Trust), Swami Satyananda Saraswati conta que “na Índia, as crianças recebem tradicionalmente suas instruções iniciais de Yoga no tempo de upanayanvidhi, uma cerimônia de iniciação, na idade de oito anos”. A professora Janete Marcatto, diretora da Escola de Yoga Inti Liceu da Vida, dá aulas também para crianças, e explica que a “importância dessa idade para os cientistas modernos
está ficando bem mais compreensível. Eles já reconhecem que representa um marco crucial no desenvolvimento tanto fisiológico quanto psicológico de cada indivíduo, marcando o início da transição da consciência infantil para a vida adulta”. A prática pode começar antes disso, desde que haja uma adaptação à fase do desenvolvimento motor. Renata Sumar, por exemplo, tem alunos bebês que fazem um trabalho de preparação para que, mais ou menos aos dois anos, possam fazer alguns asanas. “Não é massagem”, explica Renata, “são movimentos feitos com o corpo do bebê que esboçam asanas ou um meio caminho para os mesmos”.

O desafio da concentração
Colocar os pequenos em cima do mat não é tarefa das mais fáceis. No meio de tantas atividades extracurriculares acumuladas pelas crianças, o Yoga deve ser um momento para eles, não somente para os pais ou para o futuro. Deve ser um prazer, não mais uma obrigação. “Para isso, é necessário que o Yoga seja apoiado pelo lúdico, por momentos mágicos, com aprendizagem por meios corporais, emocionais ou até, do enorme potencial imaginativo, que vem sendo desprezado nos últimos tempos, pelas horas passadas em frente à televisão e ao computador” explica João, que ilustra suas aulas com diversas histórias, como fez com a prática sugerida nas páginas anteriores. A professora Cristina Pitanga, que ensina Yoga para crianças em São Paulo, acredita que “quando o trabalho de Yoga infantil é desenvolvido de uma forma lúdica, além dos asanas ensinamos também os valores essenciais e os conceitos do Yoga”. Porém o professor deve lembrar que atrás do ato de brincar há uma clara teoria de aprendizagem e, assim que a criança cresce, a apresentação do Yoga pode ser mais estruturada. “Explicamos que praticar Yoga é legal, mas não é uma brincadeira e sim uma atividade que contribui para o bem-estar”, explica Sumar.

Inspira, expira…
Os praticantes de Yoga sabem a importância de respirar direito. Os pranayamas simples ajudam as crianças a terem consciência de sua respiração, além de suprir de oxigênio fresco os pulmões destes pequenos alunos, têm efeito direto no cérebro e nas emoções. “A estabilidade emocional adquirida através do pranayama libera a energia mental criativa de uma maneira construtiva e a criança passa a ter mais autocontrole e mais consciência de si”, explica Janete. Sumar, que também é fonoaudióloga, adverte para outro problema: “Vejo muitas crianças que não conseguem respirar pelo nariz – são as chamadas respiradoras bucais. Muitas delas não sabem assoar as narinas, não entendem como a força de inspiração funciona e acabam puxando o ar pela boca, que é muito mais fácil do que puxá-lo pela narina que está obstruída”. Entrar em contato com a respiração consciente é de grande valia em casos como esses.

Segundo o professor Glauco Tavares, entre os benefícios dos pranayamas estão:
• expansão e consciência da respiração;
• quietude da mente;
• concentração e estado de tranqüilidade.

As crianças estão mais ligadas ao momento presente do que os adultos, que se encontram em meio às preocupações, lembranças do passado e ansiedades do futuro. Uma criança ainda é um papel em branco, em que as impressões mentais são escritas à medida que atravessa sua infância e puberdade, coletando experiências no processo de crescimento. Ajudar a criança a ter mais consciência durante esse processo é o mínimo que podemos fazer por eles e pelo futuro do mundo.

Fontes:
João Soares – www.yogacomhistorias.com.br

Maurício Salem – www.yoganataraja.com.br

Renata Sumar Gaertner – www.jaivida.com

Matéria publicada na íntegra na PYJ # 10

Entrevista da revista Prana Yoga com o professor João Soares

YOGA PARA CRIANÇAS

Professor contador de histórias
Conheça o professor de Hatha Yoga João Soares que só se encontrou quando começou a ensinar para as crianças
24/06/2008

Por Thays Biasetti

O Yoga faz parte da vida de João Soares desde a juventude, quando conheceu a prática. O professor de Hatha Yoga só se encontrou no Yoga, em sua vida adulta, quando criou uma maneira de trazer novos alunos para a prática- as crianças. João é conhecido pelo trabalho que realiza com os pequenos, inserindo-os no Yoga por meio de histórias lúdicas.

eYoga- Como começou sua história com o Yoga?
João Soares- Quando tinha 17 anos, li o livro da Annie Besant, chamado “Introdução ao Yoga”. Aos 18, ganhei uma revista de Yoga, peguei o endereço de uma escola e fui praticar. Mesmo a prática tendo durado apenas seis meses, eu senti que o Yoga tinha algo especial para acrescentar na minha vida.

eYoga- O que mudou na sua vida depois do Yoga?
JS- Voltei a ter contato com o Yoga só aos 29 anos. Com essa idade, continuava tímido, inseguro, quase 20 quilos mais gordo e à beira de uma depressão. A terapia me ajudava muito, mas não era suficiente. Na época, eu estava fazendo faculdade de psicologia, parei e voltei a procurar o Yoga. Foi quando conheci a professora Carmen Perez (que depois virou minha grande amiga, sócia, madrinha de casamento e “avó” do meu filho). Com ela, comecei a praticar regularmente. Em cinco meses, emagreci os 20 quilos, e chorei mais do que chorei em toda minha infância. Em dois anos, percebi que havia superado e resolvido muito mais conflitos e questões internas do que consegui em seis anos de terapia. Quanto mais praticava, mais descobria que o Yoga tinha algo especial para mim. Então, foi assim que o Yoga entrou definitivamente na minha vida.

eYoga- Você faz um trabalho com crianças. Qual foi o motivo de ter se dedicado a trabalhar com os pequenos?
JS- Trabalhei no SOS criança. Era pesado, denso. Embora sempre tenha adorado esse contato com os pequenos, o trabalho chegou a um momento emocionalmente insuportável. Um dia, a professora Carmem Perez, que já sabia o que eu estava passando, me viu contando histórias e disse: “Você tem que dar aula para crianças!”. Adorei a idéia e comecei a fazer o curso de formação de professores. Começamos a pesquisar um jeito de ministrar as aulas para os pequenos. No começo, nosso trabalho chamava-se Yoga com Teatro e chegamos a ter uma turma de 30 crianças no espaço dela, na zona Norte. Isso foi há 14 anos, quando o yoga não era tão divulgado. Acho que o real motivo de trabalhar com os pequenos foi perceber que este era o meu dharma. Com o yoga para crianças eu não me violentava e percebia rapidamente o resultado do trabalho. Isso me motivou cada vez mais a pesquisar e a colocar nele tudo o que eu acreditava.

eYoga- Você acredita que esse trabalho com as crianças pode mudar o pensamento delas no futuro?
JS- Tenho certeza que isso é possível! Sabemos que os asanas atuam também no corpo emocional: ganhar força e ousadia em uma postura é a possibilidade de incorporar essa força e ousadia na personalidade, e isso já ajudará a criança ser mais segura e confiante sem que, para isso, tenha que ser estimulada o tempo todo ao excesso de disputa e competitividade. Além de desenvolver a concentração, o Yoga atua sobre o hemisfério direito do cérebro, abrindo a possibilidade do lado artístico e também um olhar mais holístico para as coisas. Isso tudo contribui para o crescimento de adultos mais equilibrados emocionalmente. Outra coisa muito importante é cuidar para que o Yoga não vise somente os asanas, ajudando as crianças a desenvolver vários tipos de inteligência e a incorporar em sua personalidade os valores do Yoga conhecidos como os yamas e nyamas. Recebendo esses estímulos, a criança poderá levá-los para sua vida, e isso com certeza repercutirá em uma nova sociedade. Felizmente pude presenciar alguns resultados desse poder transformador ao reencontrar crianças, já no papel de jovens adultos, anos mais tarde. Tive surpresas muito agradáveis!

eYoga- Como é lidar com crianças? Como você faz para que elas entendam os princípios do Yoga?
JS- É muito bom lidar com os pequenos, mas às vezes é difícil também. Você tem que estar preparado, deve preparar também a aula antes e não pode contar só com a qualidade do improviso. Às vezes, as aulas não acontecem como você queria ou pensava; às vezes, tudo é maravilhoso. Ou seja, estou sempre aprendendo!

Para que os pequenos entendam os princípios do Yoga, uso as histórias, que são formas mágicas de falar ao inconsciente das crianças, de brincar no reino do “era uma vez”, onde tudo é possível. Lá, a criança pode vivenciar seus medos, ousar ao usar a coragem escondida. Uma boa história trará sempre elementos fundamentais para o amadurecimento emocional da criança, como também princípios e valores para suas vidas. Existem histórias nas quais poderemos encontrar vários yamas e nyamas. Contextualizando esses ensinamentos a partir das histórias fica muito mais fácil para a compreensão das crianças, porque por meio desse recurso, tudo faz sentido. Nada é imposto.

eYoga- Qual o motivo que leva os pais a levarem as crianças para a aula de Yoga?
JS- Vários são os motivos: às vezes, porque o médico encaminhou, outras por obesidade, agitação, hiperatividade, insegurança etc. Muitos pais as levam porque são praticantes e gostariam que os seus filhos também se beneficiassem desse universo. Seja qual for o motivo, o Yoga para crianças sempre a ajudará, principalmente se o recurso usado pelo professor tem como premissa o lúdico.

eYoga- Seu trabalho com as crianças trabalha muito com histórias. Que tipo de histórias?
JS- Eu adoro usar os mitos e os contos de fadas, porque toda a simbologia que possuem é fantástica para explorar com os pequenos. Também utilizo histórias de autores atuais ou desenvolvo as minhas próprias (qualidade que o Yoga me ajudou a desenvolver).

eYoga- A partir do que você criou essa idéia das histórias?
JS- Como disse, no início, o trabalho era feito em parceria com minha amiga Carmen Perez e focava um pouco mais o Yoga e teatro. Nos últimos sete anos, venho dando continuidade ao estudo e às pesquisas. Assim, o Yoga com Histórias foi se consolidando como metodologia, como um instrumento que tem se mostrado seguro para o caminho das crianças dentro da profundidade do Yoga.

eYoga- Você já sofreu algum tipo de preconceito por causa do seu trabalho? Você já foi alvo de críticas por ensinar crianças? Como lidou com isso?
JS- Nunca ninguém me falou, mas às vezes me parecia que isso era considerado algo menor por parte de algumas pessoas. Já ouvi algumas coisas como “criança não deve fazer Yoga, que menino deve jogar futebol e não praticar Yoga, que Yoga é para adulto, etc”. Eu acredito que meninos que jogam futebol ou praticam qualquer outro esporte terão um desenvolvimento muito melhor se praticarem o Yoga. Hoje, já temos o exemplo de muitos surfistas e atletas praticantes. Lido com isso – e com toda e qualquer crítica – dando continuidade ao meu trabalho, com a crença que tenho na força do Yoga para todos. Todos mesmo.

eYoga- Como você define o seu trabalho no Yoga?
JS- Quanto mais dou curso mais conheço gente que trabalha ou quer trabalhar com os pequenos. Penso que todos que dedicam sua energia para isso, respeitando a tradição do Yoga e o universo infantil são pessoas importantes para uma transformação futura.

eYoga- Qual resultado você quer ver desse trabalho daqui a alguns anos?
JS- Tenho o grande desejo de ver o Yoga fazendo parte do currículo escolar. Gostaria de contribuir para isso de alguma maneira.

eYoga- O que você recomendaria para as pessoas que querem ensinar seus filhos sobre o Yoga? Qual idade ideal para começar?
JS- Existem vários livros interessantes que dão dicas fáceis para iniciar o Yoga com os pequenos, como “Yoga para você e para sua família”, “A Rata Yoga”. Também, os pais podem brincar com os pequenos de fazer os asanas, de preferência com posturas que tenham nomes de bichos, ou seres da natureza. Mas, se a idéia é aprofundar o Yoga, é interessante levar as crianças até um professor.Acho que a idade ideal é a partir dos cinco ou seis anos. No entanto, um trabalho bem direcionado pode atingir os menores.

eYoga- Existe algum ponto que você acredita precisar se aprofundar no Yoga?
JS- Todos: asanas, pranayamas, filosofia e meditação, etc. Tudo é uma continuidade.

eYoga- Você acredita que podemos melhorar o mundo por meio do Yoga? Como?
JS- O Yoga é uma ciência universal que quando você pratica passa a ser pessoal: você comprova em você mesmo. Sente, e ao sentir, entende que é verdade, que existe um Deus (ou uma Força Maior) dentro de você, que Ele é amor e compaixão. Faz com que você deseje ser melhor. Quanto mais estuda e pratica verdadeiramente, mais você quer que essa transformação – que está continuamente acontecendo com você – chegue até o teu próximo.

eYoga- E aumentar a quantidade de pessoas que realmente se dedicam a isso?
JS- No começo eu não desejava dar cursos sobre a metodologia que estava desenvolvendo, apenas praticá-la com os meus alunos. Quando conheci o trabalho do Sai Baba, “as fichas caíram” e daquele dia em diante tento ser o mais acessível possível. Por isso acho ótimo se o número de pessoas que queiram trabalhar com Yoga aumentar. Só espero que as pessoas exerçam sua responsabilidade na tradição, perpetuando o Yoga não apenas como um conjunto de asanas.

eYoga- Quem são as pessoas que você mais admira no Yoga?
JS- Há um lugar especial no coração para a professora Carmen Perez que me proporcionou o acesso a esse caminho para minha transformação e para o Yoga com as crianças. Também nutro um carinho muito especial pelo professor José Antonio Machado Fila pelo sabor do encantamento que minha prática vem adquirindo, cada vez mais. Além disso, admiro todos que se transformaram e se salvaram com o Yoga.

eYoga- Se você pudesse, qual seria a mudança que você provocaria no meio do Yoga? E no mundo?
JS- Daria um basta no encaixotamento do Yoga, particularmente acho que é muito chato e desrespeitoso achar que “o seu Yoga” é melhor que o do outro; que o seu é o certo e outro é errado. É muito triste ver alguns professores que não têm a menor idéia do que é o Tantrismo, ou que acham que Yoga é só asana. O que estamos fazendo com a Tradição? Gostaria que o Yoga para crianças tivesse mais espaço e deixasse de ser visto só como algo “bonitinho” mas como algo profundo e fundamental para nossa sociedade. No mundo, eu gostaria que as pessoas valorizassem mais cada momento, cada irmão e cada parte da natureza como uma manifestação da mesma força que habita dentro de nós. Essa é também a mensagem que o Yoga deixa para o mundo.

eYoga- Quais seus projetos para o futuro?
JS- Editar meu livro “Yoga com Histórias”, continuar divulgando o site e expandir esta metodologia para outros lugares do Brasil por meio de cursos.
Quero gramar o jardim para poder curtir o sol com a Rosa e o pequeno Yam.

Os iogues mirins

YOGA PARA CRIANÇAS
Aos poucos minutos para as 3 da tarde, sempre às quartas-feiras, uma Kombi branca despeja crianças, ainda de uniforme, em uma escola de ioga na zona sul paulistana, a Shivalaya, no Brooklin. Não é de hoje que filhos de pais adeptos da milenar prática indiana recebem aulas adaptadas ao público infantil. Alguns colégios particulares oferecem ioga visando aumentar a concentração e baixar a ansiedade dos alunos, não raro estressados pelo excesso de atividades. Pois os iogues mirins da Shivalaya, que usam uniformes remendados de escolas públicas, estão sujeitos a outros tipos de estresse. (Clique na foto ao lado para ver mais imagens)

Recentemente, foram despejados da favela Jardim Edite, aquela que estava no caminho da Ponte Estaiada. Para que a fotogênica obra viária se impusesse, barracos vieram abaixo. Oito centenas de famílias espalharam-se por Paraisópolis, Campo Limpo, Real Parque e outras favelas da região. Por conta do êxodo, alguns deixaram de frequentar o Núcleo Assistencial Irmão Alfredo (Naia), que desde 1982 oferece atividades para crianças carentes – tais como as aulas de ioga. Os que ficaram, chegam e saem da Shivalaya de Kombi todas as quartas-feiras. “Eles adoram”, diz a monitora Marinalva Moura, que os acompanha.

“Apesar de a maioria ter uma vida sofrida, realçamos o quanto são especiais. Eles não são coitadinhos”, defende o professor João Carlos Soares, mais jovem do que seus 44 anos. Ele pratica ioga há quinze e criou um método para crianças. Além de aulas para adultos, mantém um site e dá cursos de Ioga com História para professores.

No saguão da Shivalaya, cinco meninos e seis meninas, entre 6 e 11 anos, depositam os tênis ao pé do escaninho e sobem até o terceiro andar. A sala é ampla, com uma janela de vidro ao fundo, piso de madeira e nenhuma mobília. Em relativo silêncio, pegam, cada um, uma esteira de borracha e estendem. Meninas formam uma fileira, meninos outra. Soares, de bermuda e camiseta, senta-se à frente, de pernas cruzadas, sorri e observa. Quando todos estão na mesma posição, levanta-se, imposta a voz e abre os braços com ênfase teatral.

“Eeeeera uma vez… um imperador!”, diz, ao puxar Henrique dos Santos, de 10 anos, que passa a interpretar o imperador. “Ele era muito velho”, diz Soares, ao que o garoto arqueia as costas, “e procurava um herdeiro para o trono.” Daí por diante, o enredo se desenrola de modo que cada um dos onze pequenos tenha um papel. Soares dá as falas e o personagem da vez as repete. Às vezes uma criança tropeça nas palavras, as demais riem. E a história continua.

“Ping fez o melhor possível, e o melhor possível sempre merece ser coroado”, narra, já próximo do fim da fábula, cuja moral é a sinceridade recompensada. “O que podemos aprender com essa história?”

“A não mentir”, diz uma menina. “A alcançar o que você pode”, completa um garoto. “Às vezes eu faço uma coisa que não dá certo”, emenda o professor, “mas a gente tem de ter…”, e deixa a frase no ar para os pequenos completarem quase em coro, dedinhos para o alto, “perseverança!”

Finda a encenação, começam os movimentos. É hora de tirar as meias e ficar de pé. Soares percebe que Aline Oliveira de Queiroga, de 8 anos, está tristonha. “Tudo bem?”, ela faz que não com a cabeça. “Minha tia morreu.” Silêncio. O movimento proposto é fechar os punhos e, num grito, ao abri-los “jogar pra fora o que a gente não quer: tristeza, medo, tudo de ruim”, orienta o professor. “Aaaaahhhh!!!”, gritam todos.

Em seguida, Soares sugere alongamentos, sempre com referências à fábula recém-contada. “Se o Ping quiser coçar o nariz com o pé, ele consegue?” Mal demonstra o movimento e a criançada executa. “E dá pra coçar com os dois pés?”, propõe em desafio maior. Os menorzinhos do grupo, Anderson Fausto, de 7 anos, e Helen Novaes, de 6, se olham, riem, rolam para trás com os pés bem acima da cabeça.

A brincadeira também é séria. Tanto que, em instantes, todos se levantam para fazer a Saudação ao Sol, uma sequência básica de movimentos da ioga. Algumas etapas têm nome de bichos, “crocodilo”, “cachorro para baixo”, “cachorro para cima”. Soares ordena correções: “Mais perto do chão, Joyce”, “Encaixa o quadril, Henrique”, “Olha pra barriga, Anderson”…

Depois é hora de realizar posições mais acrobáticas, tais como apoiar as pernas sobre os antebraços ou ficar de ponta-cabeça. A orientação é não competir: “Sem olhar pro lado, quem não conseguir tudo bem”. Aliás, o professor instituiu que dizer “eu não consigo” é palavrão. Proibido por lá. “Acredito na força das palavras. Se eles dizem que não conseguem, acabam não conseguindo mesmo”, explica depois.

A aula está quase no fim. Hora de relaxar e meditar. É quando a sala parece ficar repleta de pequenos monges, sentados de olhos fechados e mãos unidas. A música suave e a voz do professor convidam a uma pequena viagem: “Imagine que você é uma sementinha que cresce cada vez mais saudável, mais feliz, mais inteligente”. Um pequeno boceja, outra coça os olhos, os maiores parecem mais concentrados.

No final, Guilherme da Silva, de 7 anos, solta uma lágrima. “Foi por causa da música?” Faz que sim com a cabeça. Soares pede que tente pensar em coisas alegres, e chama a classe a participar: “Quem lembra daquele mantra?” Imediatamente um coro de vozes fininhas inicia a cantar Loka/ Samasta/ Sukhino/ Bhavantu… devagar e ritmado. “E o que significa?”, incita o mestre. Aline corre a traduzir: “Que todas as crianças e pessoas sejam abençoadas”, e abre um sorriso de aluna orgulhosa.

Sentados em círculo, em torno da repórter a quem chamam de “professora”, eles falam sobre ter aulas de ioga. Em comum, o fato de nenhum pai ou conhecido saber do que se tratava até ser informado pelos próprios. E também o fato de terem ensinado muitas das posições para primos, vizinhos e irmãos. “Eu saio daqui mais feliz e calmo, e mais forte também”, garante Guilherme. “Eu fico mais leve”, consegue abstrair a mais velha, Renata Pereira, de 11 anos. “Eu saio calmo”, diz Henrique.

Soares, que não é remunerado pelas aulas, sai visivelmente satisfeito. “A ioga já me fez tão bem que quero que isso chegue nas crianças da favela. Como um sonho mesmo.” Sem a bagunça que se poderia esperar de um grupo de escolares, eles descem as escadas, calçam os tênis velhos e vão embora, de Kombi, até a próxima semana.