Agora começa o Yoga – Por Madu Cabral

Agora começa o Yoga – Por Madu Cabral

YOGA PARA CRIANÇAS

A prática ajuda no desempenho escolar dos pequenos
Publicada em 09/11/2007 – Prana Yoga Journal

Por Madu Cabral

A vida corrida, o estresse, a hiperatividade e todos os outros hábitos prejudiciais da vida moderna são impostos às nossas crianças desde o nascimento. Falta tempo para aprender quem realmente são, investigar o tão aclamado autoconhecimento, já que desde cedo os pequenos estão sendo preparados para o futuro, para serem profissionais bem-sucedidos. Com uma agenda tão apertada quanto a nossa, as crianças dividem seu tempo entre escola, aulas de línguas, atividades físicas… A infância passa. Nesse ritmo, as crianças transformam-se em adultos já acostumados a vida agitada, achando que devem viver para um dia ter uma “vida melhor”. A vida já é suficientemente incrível agora, e é isso que o Yoga pode ensinar.

A educadora infantil e praticante de Yoga Maria João Leser explica que “um dos conceitos mais modernos de educação, o construtivismo, afirma que o conhecimento é construído pela criança a partir da interação dela com o mundo. É lógico que essa interação se dá pelo corpo, seu principal instrumento de aprendizado. Quanto mais a criança tiver o domínio desse instrumento, conhecer e saber utilizá-lo, mais ela será capaz de construir o seu próprio conhecimento”. O Hatha Yoga é um sistema milenar que ensina, em primeira instância, exatamente isso. É nosso “manual do proprietário”, explica como usar o corpo para ele ser uma ferramenta para nossa evolução.

As primeiras aulas de Yoga normalmente nos fazem lembrar que algumas posturas fizeram parte de nossa infância. Quem nunca brincou de virar de cabeça para baixo, de se equilibrar sobre as mãos ou de sugar a barriga para dentro para imitar um esqueleto? Esquecemos dessas habilidades e, como deixamos de praticá-las, enrijecemos e perdemos a capacidade de fazê-las. O professor Maurício Salem do Yoga Nataraja (RJ), que dá curso de formação para instrutores de Yoga para criança e desenvolve projetos para os pequenos, explica que o Yoga cria bases de uma filosofia para uma vida saudável. “Se praticássemos direitinho desde sempre, talvez não precisássemos mandar tanto o corpo ao conserto, só de vez em quando”, conta o professor. A prática de Yoga para as crianças, além de manter a flexibilidade inata do corpo e desenvolver outras habilidades corporais, estimula concentração, calma e autoconhecimento, qualidades essenciais para um desenvolvimento saudável.

Endireita essas costas!
O professor da Escola de Yoga Carmen Perez, João Soares, que dá aulas para crianças há mais de 13 anos e desenvolveu uma metodologia especial de Yoga com histórias para os pequenos, esclarece que na infância o corpo está em pleno desenvolvimento e a criança está cada vez mais aprendendo a lidar com ele. “Os asanas desempenham um trabalho riquíssimo, ajudando a criança na apropriação dos seus movimentos e atuando em todo conjunto de músculos de forma a aumentar sua força, irrigação e alongamento”. Os benefícios físicos de uma prática adaptada fornecem argumentos suficientes para qualquer educador – seja qual for o método que segue – inserir o Yoga na vida dos pequenos:

• desenvolve a coordenação motora;
• melhora a postura corporal criando estabilidade,
equilíbrio, força, alongamento e flexibilidade;
• melhora do fluxo de energia vital pelo corpo;
• fortalece a musculatura;
• auxilia o funcionamento dos órgãos e glândulas;
• fortalece o sistema imunológico.

Yoga melhora o desempenho na escola
Segundo a professora Maria João, esses benefícios criam ótimas condições para melhor rendimento escolar da criança. “A concentração depende também de tônus muscular e um bom condicionamento postural. A criança que não tem essas habilidades desenvolvidas pode ter de usar parte do cérebro só para conseguir se manter sentada na cadeira durante as aulas, em vez de concentrar a atenção no que está sendo ensinado”.

Meditação na estrela
Há controvérsias, entre os professores, a respeito da idade ideal para o início das práticas de meditação e o contexto em que ela deve ser passada, mas alguns exercícios de relaxamento e visualizações podem ser um bom começo. “As crianças não conseguem ficar tempo suficiente em uma mesma posição”, explica Mel Vieira de Souza, professora de Iyengar Yoga e de Yoga para crianças no Yoga Dham, em São Paulo. A prática a seguir é utilizada pelo professor João com suas turminhas: Sentamos em postura confortável e começamos a imaginar que a noite vai chegando, gostosa e fresca. No céu surge a primeira estrela, mas esta estrela é diferente: é a nossa estrela. Toda vez que precisamos de força, coragem e saúde, é só procurarmos por ela. Encontre cada um a sua estrela e imagine que ela vai jogando toda sua luz, brilhante, dentro do seu coração. Nosso corpo fica totalmente iluminado. Estamos tão fortes que podemos distribuir nossa luz a todos que precisam. Imaginamos que, agora, voamos por cima das casas e em cada uma delas jogamos um pouco de luz e que isso trará alegria e felicidade para todos. Depois de cumprida nossa missão, ficamos tranqüilamente em silêncio, sentindo o brilho e a força que está dentro de nós.

Maurício, que dá aulas de Yoga em escolas regulares no Rio de Janeiro, conta que, hoje em dia, o índice de distúrbios como hiperatividade, bipolaridade e déficit de atenção diagnosticado por médicos tem crescido. “Quem convive com educadores sabe que estes problemas têm reflexo direto em sala de aula, com o aumento de crianças sendo diagnosticadas pelo simples fato de não conseguirem se concentrar e comportarse em sala de aula”, acrescenta o professor. A ansiedade também pode atrapalhar o aprendizado e a concentração. Quem não se lembra de ter estudado tudo e ter um “branco” na hora da prova por causa do nervoso? “Eu me lembro disso acontecendo comigo quando jovem” conta a professora de Yoga Renata Sumar Gaertner, dona da escola Jai Vida, em Belo Horizonte, que dá aulas para crianças e bebês há mais de 20 anos. “Eu não fazia nada visível nessa hora. Apenas procurava respirar muito e estar calma para realizar qualquer tipo de avaliação. Algumas amigas começaram a pedir para que eu passasse a minha calma para elas. E eu falava: ‘Respire fundo e sinta a sua respiração que, com certeza, o que você sabe está aí dentro’. Dava certo!”

Cabecinhas saudáveis
A boa postura é natural nas crianças. Normalmente começamos a enrijecer e adquirir má postura conforme crescemos. A prática de asanas fortalece os músculos do abdome e das costas, ajudando na sustentação da coluna e na manutenção dessa postura saudável. “Isso reflete totalmente na oxigenação do cérebro e na atitude interna”, alerta o professor João. É importante avaliarmos que é no corpo que registramos nossas primeiras impressões, como as sensações de medo, prazer e de dor. Nele estamos constantemente criando, por meio desses registros, memórias que interferirão de maneira positiva ou negativa em toda nossa vida. Por meio do trabalho com próprio corpo, as crianças aprendem a lidar com suas emoções. “Uma criança que tem os ombros caídos e a coluna curvada pode ter uma conduta corporal que denota insegurança e atitude de autodefesa”, exemplifica Soares. “Quando ocorre a mudança corporal pelas posturas nas quais a criança expande o peito, ela desenvolve uma nova postura interna de força e ousadia. Psicologicamente, ela também incorpora esta força e ousadia em seu universo emocional”, ensina ele.

O início de tudo
“Inicialmente são expostos os asanas, pois eles constituem o primeiro passo do Hatha Yoga. Os asanas são praticados para conquistarem-se postura firme, saúde e flexibilidade” – Hatha Yoga Pradipika, I:17 Em seu livro Yoga e Educação para as Crianças (Yoga Publications Trust), Swami Satyananda Saraswati conta que “na Índia, as crianças recebem tradicionalmente suas instruções iniciais de Yoga no tempo de upanayanvidhi, uma cerimônia de iniciação, na idade de oito anos”. A professora Janete Marcatto, diretora da Escola de Yoga Inti Liceu da Vida, dá aulas também para crianças, e explica que a “importância dessa idade para os cientistas modernos
está ficando bem mais compreensível. Eles já reconhecem que representa um marco crucial no desenvolvimento tanto fisiológico quanto psicológico de cada indivíduo, marcando o início da transição da consciência infantil para a vida adulta”. A prática pode começar antes disso, desde que haja uma adaptação à fase do desenvolvimento motor. Renata Sumar, por exemplo, tem alunos bebês que fazem um trabalho de preparação para que, mais ou menos aos dois anos, possam fazer alguns asanas. “Não é massagem”, explica Renata, “são movimentos feitos com o corpo do bebê que esboçam asanas ou um meio caminho para os mesmos”.

O desafio da concentração
Colocar os pequenos em cima do mat não é tarefa das mais fáceis. No meio de tantas atividades extracurriculares acumuladas pelas crianças, o Yoga deve ser um momento para eles, não somente para os pais ou para o futuro. Deve ser um prazer, não mais uma obrigação. “Para isso, é necessário que o Yoga seja apoiado pelo lúdico, por momentos mágicos, com aprendizagem por meios corporais, emocionais ou até, do enorme potencial imaginativo, que vem sendo desprezado nos últimos tempos, pelas horas passadas em frente à televisão e ao computador” explica João, que ilustra suas aulas com diversas histórias, como fez com a prática sugerida nas páginas anteriores. A professora Cristina Pitanga, que ensina Yoga para crianças em São Paulo, acredita que “quando o trabalho de Yoga infantil é desenvolvido de uma forma lúdica, além dos asanas ensinamos também os valores essenciais e os conceitos do Yoga”. Porém o professor deve lembrar que atrás do ato de brincar há uma clara teoria de aprendizagem e, assim que a criança cresce, a apresentação do Yoga pode ser mais estruturada. “Explicamos que praticar Yoga é legal, mas não é uma brincadeira e sim uma atividade que contribui para o bem-estar”, explica Sumar.

Inspira, expira…
Os praticantes de Yoga sabem a importância de respirar direito. Os pranayamas simples ajudam as crianças a terem consciência de sua respiração, além de suprir de oxigênio fresco os pulmões destes pequenos alunos, têm efeito direto no cérebro e nas emoções. “A estabilidade emocional adquirida através do pranayama libera a energia mental criativa de uma maneira construtiva e a criança passa a ter mais autocontrole e mais consciência de si”, explica Janete. Sumar, que também é fonoaudióloga, adverte para outro problema: “Vejo muitas crianças que não conseguem respirar pelo nariz – são as chamadas respiradoras bucais. Muitas delas não sabem assoar as narinas, não entendem como a força de inspiração funciona e acabam puxando o ar pela boca, que é muito mais fácil do que puxá-lo pela narina que está obstruída”. Entrar em contato com a respiração consciente é de grande valia em casos como esses.

Segundo o professor Glauco Tavares, entre os benefícios dos pranayamas estão:
• expansão e consciência da respiração;
• quietude da mente;
• concentração e estado de tranqüilidade.

As crianças estão mais ligadas ao momento presente do que os adultos, que se encontram em meio às preocupações, lembranças do passado e ansiedades do futuro. Uma criança ainda é um papel em branco, em que as impressões mentais são escritas à medida que atravessa sua infância e puberdade, coletando experiências no processo de crescimento. Ajudar a criança a ter mais consciência durante esse processo é o mínimo que podemos fazer por eles e pelo futuro do mundo.

Fontes:
João Soares – www.yogacomhistorias.com.br

Maurício Salem – www.yoganataraja.com.br

Renata Sumar Gaertner – www.jaivida.com

Matéria publicada na íntegra na PYJ # 10

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