Categoria: Novidades

Tópicos que serão abordados no curso.

YOGA PARA CRIANÇAS

A Criança em seus aspectos físico, emocional e mental

* As fases do desenvolvimento infantil : entendendo a criança dentro de cada faixa de idade

* Processo de vinculação: construindo regras sem perder o foco da afetividade

* Psicomotricidade e yoga para crianças por Sandra Bortholo

* Os asanas – trabalhando o corpo infantil e suas necessidades – Leandra de Souza Dib

* Inteligências múltiplas – construindo novas possibilidades e explorando as inteligências

O Yoga

* Os oito membros do Yoga de Patanjali (astanga) – João Gonçalves

* O yoga dentro do universo da criança:

– Yamas e nyamas – construindo valores importantes para a criança e para a sociedade;

– pranayamas – o contato com a energia interna: a respiração como transformadora dos aspectos psíquicos e mentais;

– Pratyahara e dharana – saindo dos sentidos externos e aumentando o poder de concentração dentro e além da aula de yoga;
-dhyana – o estado meditativo, através das visualizações lúdicas, e seus benefícios para a criança.

* Yoganidra – O poder da afirmação na transformação interna

* Mantras – A utilização do som e da vibração para crianças.

A abordagem lúdica: as histórias, brincadeiras e jogos como veículos da aprendizagem infantil

* As Histórias – a importância das histórias no desenvolvimento psíquico e emocional da criança:

– O caminho do herói – Recursos para escrever histórias / a contribuição dos estudos Joseph Campbel;

– A arte de contar histórias – Desenvolvendo a habilidade de contar histórias.

-Roda de histórias

* O desenho como manifestação do imaginário:
– Desenhando com o lado direito do cérebro: o cérebro holístico – Prof. Carmen Perez

– Desenhando e criando mandalas – a utilização das mandalas como instrumento de criação, concentração e meditação : Prof. Carmen Perez e Prof. João Gonçalves.

* Jogos cooperativos – Superando o modelo da competitividade, através de um novo olhar.

Aulas para crianças de acordo com a idade faixa etária

* Brincando com o Yoga: aulas para crianças de 2 a 4 anos: Professora Cecília Hernandes.

* Yoga para crianças de 4 a 6 anos

* Yoga para crianças de 7 a 11 anos

Yam é um mantra. Yam é o mantra do coração.
Yam é um mantra. Yam é o mantra do coração.

Para meu filho Yam, que me faz recuperar o olhar de primeira vez.
Yam é um mantra.

Yam é o mantra do coração.

Yam é presente de Deus.

Para mim, para os seus e para quem chegar.

Yam é um mantra

Yantra que vibra no coração

Seu corpo de luz é constelação

Quando quiser aquietar

Quando quiser ouvir a voz

Quando estiver a sós

Cante Yammmmmmmmm

Yam é um principezinho valente.

Seu amigo é um dragão.

Dragão é o grilo que mora no nosso jardim.

Yam mordeu o nariz do Buda

Águas passadas: agora são amigos e praticam meditação.

O YOGA E A CRIANÇA POR SANDRA BORTHOLLOTO

YOGA PARA CRIANÇAS

O YOGA E A CRIANÇA

Criança precisa de movimento. Essa idéia é recorrente em muitos autores estudiosos do desenvolvimento infantil como Piaget, Wallon e, principalmente, autores da ciência do movimento humano, a psicomotricidade. Todos eles falam sobre a importância do corpo e de seus movimentos nas aprendizagens para a educação integral.

“A criança é o seu corpo” é a afirmação do psicomotricista Ajuriaguerra para esclarecer a unicidade corpo-mente. Não se trata, portanto, do corpo treinado mecanicamente nas atividades repetitivas de jogos competitivos em que o objetivo é a excelência do desempenho, mas do corpo que se movimenta para agir e expressar-se em presença das situações a que deve se ajustar.

E, atualmente, as crianças quase não se movimentam em brincadeiras e jogos como pular amarelinha, pular corda, rodar pião, pega-pega… Suas brincadeiras são, muitas vezes, os videogames, as conversas via Internet, os torpedos via celular…..

Então as escolas vivem cheias de crianças desajeitadas, que tropeçam, esbarram nos colegas, não conseguem seguir orientações de espaço, que seguram o lápis com força demasiada e, ao escrever, pressionam tão fortemente o lápis no papel que a marca do que escreveu é possível ser visualizada nas três, ou mais, folhas seguintes. São crianças que não viveram seu corpo.

O Hatha Yoga (Yoga significa união), em termos filosóficos, é aquele em que se praticam, com grande ênfase, alguns passos do Ashtanga Yoga,de Patânjali: os asanas (posturas psicofísicas energéticas), os pranayamas (exercício respiratórios) e o relaxamento, que são acompanhados de atitudes mentais favoráveis ao desenvolvimento da autoconsciência. Todos esses passos são vivenciados pela criança de modo muito lúdico, sem competitividade. Para que esse processo flua de modo que a criança se beneficie integralmente dessas atividades yóguicas, é aconselhável que seu professor-instrutor tenha uma visão holística que inclua conhecimentos razoáveis sobre o desenvolvimento psicofísico infantil, além, é claro, do domínio da filosofia e prática do Yoga.

A criança, praticante de Yoga, tem um desenvolvimento mais tranqüilo e harmonioso. Os asanas servem de instrumento para o domínio do corpo, estimulando glândulas, vitalizando o físico e revigorando o sistema nervoso, em um processo de respeito aos próprios limites, sem qualquer preocupação de competição com os outros praticantes. Os asanas ajudam as crianças em idade escolar no desenvolvimento da coordenação motora global e fina tão necessárias às atividades como a escrita, o recorte com tesoura, o manuseio de régua, compasso, por exemplo. Educam a postura psicofísica que permite sentar-se adequadamente nas carteiras, evitando dores musculares, e manter atenção às atividades propostas. Eles ativam a circulação sanguínea. Melhoram o sentido de equilíbrio, permitido um movimentar-se mais seguro e firme. Desenvolvem a noção de lateralidade, que permite à criança, por exemplo, em processo de aquisição de escrita, diferenciar p de q, d de b. Os asanas corrigem o peso do corpo e permitem a compreensão e observação dos processos e fenômenos corporais, melhorando a auto-imagem e a auto-estima tão necessárias aos escolares na convivência com seus pares.

Os pranayamas, exercícios respiratórios, melhoram as condições gerais desse aparelho, trabalhando a respiração correta, profunda contra asmas e disfonias, trazendo equilíbrio emocional, autoconfiança, disciplina e concentração.

Sabemos que as crianças são muito requisitadas atualmente pelo excesso, simultaneidade e rapidez das comunicações, principalmente visuais e auditivas e, por isso, apresentam grande dificuldade de concentração, questão apontada constantemente por seus professores.

A falta de equilíbrio emocional, de autoconfiança e de autodisciplina são fatores geradores de conflitos sérios no ambiente escolar. Os escolares não se entendem mutuamente e nem aos adultos, não sabem, muitas vezes, resolver questões sem usar de violência verbal ou, até mesmo, física e se expõem pouco afetiva e intelectualmente. Em uma situação escolar em que se constroem conhecimentos, atitudes e valores e que, portanto, o papel do aluno é daquele que age, ou melhor, que interage, equilíbrio emocional, concentração, autodisciplina e autoconfiança são fundamentais.

São por tais motivos que acreditamos que a prática do Yoga, que leva o homem a alcançar o maior desenvolvimento possível de sua personalidade através do controle do físico e da psique, pode e deve ser recomendada desde a infância.

Sandra Bortholoto

Professora de Yoga, pelo Instituto de Yogaterapia, pósgraduanda em Psicomotricidade na Educação pela FIJ, pósgraduada em Transdisciplinaridade em Educação, Saúde e Liderança pela FAVIM/UNIPAZ, pósgraduada em Técnicas de Tradução pela PUCCampinas, Pedagoga e professora aposentada de língua portuguesa. Atuou por mais de três décadas na educação formal, passando pela educação infantil ao ensino superior.

Dedica-se às aulas de Yoga para crianças e às pesquisas nessa área numa abordagem holística e participa do Curso para formação de professores de yoga para crianças ,promovido pelo Yoga Com Histórias.

A inspiração mitológica da prática de yoganidrā

A inspiração mitológica da prática de yoganidrā

Yoganidrā é uma prática de sono consciente, na qual a atividade corporal é cessada, com o equilíbrio do sistema sensorial e a presença de um estado de despertamento interno.

O nome dessa prática provém do sânscrito (“sono/nidrā produzido pelo yoga”) e pode ser compreendido mitologia hinduísta. A mitologia, com seus paradoxos, lógica não-convencional e concretude narrativa, sempre foi uma forma de conhecimento de extrema riqueza para que possamos refletir sobre nosso ser e nosso mundo de um modo que supere as limitações de percepção condicionadas por fatores sociais, familiares ou pessoais.

Conta-nos a tradição indiana que o universo passa por quatro longas eras temporais. Existe, nessa sucessão, uma decadência pela qual a lei cósmica (dharma) se manifesta de forma muito intensa na primeira era e de forma muito frágil na quarta era, resultando, assim numa queda da capacidade biológica e moral humana, bem como da organização social e natural. E, ao fim da quarta era, considerada a pior de todas, há o início de um novo ciclo, inaugurado pela melhor de todas as eras. Entre as eras e os ciclos, há longos intervalos de “descanso” cósmico, nos quais a matéria está totalmente dissolvida, sem manifestação de qualquer tipo de forma. Nesses intervalos, que são chamados de pralaya, tudo o que existia deixa de existir, restando apenas a latência, isto é, a virtualidade de um novo existir que retornará com o início da era seguinte.

Relata-se que, durante o pralaya, o deus Vishnu, que, por muitos, é visto como o mantenedor do cosmo e protetor de sua lei, permanece deitado sobre uma serpente de mil cabeças que flutua sobre um infinito oceano de leite. Seu estado de repouso, a serpente e o oceano caracterizam a condição de virtualidade das possibilidades infinitas pelas quais a vida se manifesta. No pralaya, a vida existe de forma plena, mas não de forma manifesta. Não existe o fenômeno, o que existe é apenas a essência.

Há uma deusa que é a responsável pelo estado de sono de Vishnu, assim como pelo seu despertar: a deusa conhecida como Yoganidrā. É ela quem o faz repousar e é ela quem o desperta. A figura mitológica da Yoganidrā é, dessa forma, compreendida como a potência energética que leva o deus Viṣṇu à cessação ou à atividade.

Em síntese, a prática, que hoje chamamos de yoganidrā procura integrar de forma consciente a potência que nos faz dormir ou despertar e que nos leva da latência à manifestação. Trata-se, dessa forma, de algo que vai muito além do relaxamento, trata-se de uma prática de transformação pessoal e de autoconhecimento.

Meditação para crianças

YOGA PARA CRIANÇAS

Por João Soares e Rosa Muniz ─ Yoga com Histórias

É importante acreditarmos que as crianças podem se iniciar na meditação, mesmo que isso a princípio aconteça apenas por alguns minutos, ou menos.

A nossa mente, assim como a das crianças, vive em um turbilhão de pensamentos e desejos. E, nesse processo, não conseguimos nos observar e entender o que realmente queremos. Com excessos de desejos, criamos e acreditamos em nossos sofrimentos, valorizando cada vez mais a ideia de que ter é muito mais importante do que ser.

Proporcionar à criança a percepção de que existe um espaço interior, onde ela pode se recolher, buscar orientação, se conectar com um aspecto mais sagrado de si mesma, é também a função da meditação para crianças.

Geralmente os pequenos estão prontos para se iniciarem na meditação quando conseguem acompanhar uma história, mas é importante que eles percebam que isso não é uma obrigação.

Devemos deixar claro que acompanhar uma história, um relaxamento etc., ainda não é meditação, mas sim instrumentos importantes que prepararão a criança. Meditar é entrar em contato, ir além da mente, perceber o que acontece quando a mente silencia e algo se expressa.

Para os adultos, poderíamos chamar esse “algo” de Deus interior, Essência, etc., mas para as crianças, aqui, chamaremos de força interior.

Como sempre partimos do lúdico, faz-se necessário o uso das imagens que surgem com as histórias até o ponto em que o professor pedirá para a criança só observar a força, ou o que ela percebe dentro de si, aí sim podemos acreditar que a criança terá seus próprios elementos para meditar.

A meditação oferece, comprovadamente, uma série de benefícios para crianças, entre eles: diminuição do fluxo de ondas betas no cérebro, que estão relacionadas ao estresse, adrenalina e cortisol, além de ajudar no controle das reações impulsivas (cérebro reptiliano). Ajuda também a trabalhar em ondas alfas que estimulam a criatividade e o aprendizado, como também o olhar mais holístico para o universo.
A meditação estimula partes do cérebro que estão relacionados à autoestima, ou seja, também estimula a inteligência intrapessoal. Ajuda no combate ao déficit de atenção, estresse e hiperatividade infantil, potencializa a concentração.

Se a meditação for praticada antes da aula de Yoga, ou fora desse contexto, sugerimos alguns alongamentos para preparar o corpo. As crianças podem se sentar diretamente em seus tapetes, mas podemos também usar um cobertor ou uma almofada para elevar o quadril, o que ajudará a manter a coluna reta.

Para começarmos com nossa meditação, vamos usar a figura do mago, que já é conhecido pelas crianças.

O Cristal Mágico

Feche seus olhos e me acompanhe nessa jornada: sinta seu corpo confortável, suas costas esticadas e seu rosto completamente relaxado.

Respire devagar como se seu corpo fosse um imenso balão a se encher. Solte o ar devagar como se o seu corpo fosse um imenso balão a se esvaziar. Encha o balão. Esvazie o balão.

Sua mente está tranquila e pronta para passear no mundo da imaginação!

Gostaria de lhe apresentar um amigo muito especial! Um antigo mago, que viajou por toda a Índia e aprendeu muitas coisas interessantes! Com suas barbas compridas e bochechas rosadas, sempre foi respeitado por todos, em todos os lugares do mundo, pois seus poderes mágicos, sua sabedoria e sua bondade já ajudaram muitas e muitas pessoas!

Ele traz uma pedra, coloca em suas mãos e pede para que você a segure.
Sinta a pedra com suas mãos.

Toque, explore. Sinta sua textura. Sinta sua temperatura.

Perceba se ela é lisa, quente ou fria, grande ou pequena. O Mago pede que você segure a pedra com as duas mãos e sinta tudo que você consegue perceber. Esta pedra foi criada pela Mãe Terra há muito, muito, tempo atrás e traz dentro a força de todo este tempo: uma grande e poderosa energia!

Perceba que, ativada pelo toque de suas mãos, pelo seu poder pessoal, toda esta força se ativa, torna-se novamente viva. Sinta como a pedra brilha intensamente. Perceba que ela se transforma em um lindo cristal!

O cristal tem o poder de enviar energia para todo o seu corpo! Sinta seu corpo forte e vivo! Sinta seus pensamentos tranquilos e inteligentes. Sinta a força viva dentro de você.

Sinta que a energia de todas as coisas da vida também está presente dentro de você!

E sentindo toda esta magia, permaneça em silêncio…

Depois de alguns minutos peça para a criança ir retornando. NamastÊ

Tudo de bom para você. Tudo de bom para mim. Tudo de bom para todos nós!

Yoga para Crianças
Yoga para Crianças

Ana Flávia Nogueira Nascimento

Psicóloga formada pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia)

Mestre em Antropologia pela PUCSP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

Professora de Ashtanga Yoga, formação concluída na Escola de Yoga Namaste (Goiânia) supervisionada pelas yoginis Claudia Sabag e Clara Sabag

Atua como psicóloga clinica na linha da Bioenergética, com Massagem Bioenergética Relaxante e Terapia Craniossacral.

Trabalhou no CREAS (Centro de Assistência Social) da cidade de Araguari, aonde desenvolveu um projeto de yoga para crianças em situação de risco de 2008 a 2009.

Praticante de yoga há 10 anos, mãe da Yumi (1 ano e 4 meses) e esta a espera de sua segunda filha que deve chegar no inicio do ano.

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. Joseph Campbell

Em 2008 fui contratada para trabalhar como psicóloga para um centro de assistência social e minha função era atender crianças em situação de risco, dentre as quais a maioria tinha passado por situação de abuso e violência física e emocional. No inicio os atendimentos clínicos foram me mostrando que aquelas crianças tinham as marcas do sofrimento no corpo e na alma, as limitando o tempo todo enquanto seres em desenvolvimento. Percebi que o corpo delas não tinha vitalidade, elas não conseguiam se concentrar na escola e nem acompanhar as atividades oferecidas nos grupos de apoio. Foi então que resolvi utilizar como recurso terapêutico[1] o trabalho corporal da bioenergética, junto com o Yoga para abranger os aspectos físicos, emocionais e espirituais.

Comecei então com grupos pequenos de yoga duas vezes por semana. No inicio saia quase chorando das aulas, frustrada e pensando em desistir. Mas levava em consideração que nunca tinha dado aulas de yoga para crianças e que aquele grupo era muito especial em se tratando de um quadro social limite. Em pouco tempo de trabalho algo começou a mudar, as crianças já me esperavam com as mãos na frente do coração para cantar o Om e as professoras com as quais eu mantinha contato semanal, me davam respaldo positivo a respeito da melhora dessas crianças em sala de aula.

Dentre essas crianças que participavam do grupo o comportamento violento, a falta de concentração e a necessidade de contato amoroso era presente na grande maioria. Elas estavam respondendo ao mundo com a mesma violência que presenciavam em seus lares diariamente, e ao mesmo tempo imploravam por amor e cuidado. E foi através dessa brecha que consegui introduzir o Yoga, eu chegava e abraçava um por um com amor para depois começarmos a pratica das posturas e respiração.

A medida que desenvolvia o trabalho com as crianças fui observando que aos poucos elas recuperavam um pouco da graciosidade e da vitalidade perdidas, seus olhos estavam mais brilhantes e pareciam refletir esperança.

O tempo de trabalho foi curto, assim como a experiência que eu tinha para ajudar aquelas crianças. No entanto, aprendi que, a marca da violência sofrida seja por abuso sexual, seja por violência emocional e verbal, ou mesmo pelo descaso dos pais, geram transtornos psicológicos sérios que ficam marcados no corpo.

Esse trabalho durou apenas um ano porque estava difícil viajar todos os dias para trabalhar, mas foi um pontinho de luz que tocou meu coração e me fez sentir a necessidade de buscar conhecimento para desenvolver um trabalho mais elaborado e também visando a recuperação da saúde física, mental e espiritual dessas crianças.

Foi por esse motivo que senti em meu coração um chamado para participar do curso de formação em Yoga para Crianças.

No mundo contemporâneo observamos uma mudança consideravelmente preocupante no comportamento infantil.

Com o avanço tecnológico e a violência nas ruas, os pais preferem que as crianças fiquem limitadas ao espaço físico da casa vendo televisão e jogando videogame, pois assim estão ilusoriamente mais seguras. Essa exclusão social das crianças do âmbito lúdico das ruas faz com que elas fiquem mais sedentárias, movimentando-se cada vez menos. Sem falar na exigência que cai hoje sobre a criança que já nasce na escola e é exigida a todo o momento com a desculpa de que os pais estão se preocupando com o seu futuro. Esse novo modelo da família nuclear transforma o comportamento das crianças, as quais estão mais agressivas, com quadros de agitação muitas vezes considerados hiperatividade, gera falta de concentração na escola, desanimo, depressão e disfunções orgânicas tais como obesidade mórbida. Tal quadro social tem como conseqüência, o acúmulo de tensões psicofísicas, o que pode causar-lhes desordens emocionais e psicossomáticas.

A criança esta a mercê de um mundo adulto que aos poucos vai destruindo a sua graciosidade e gerando desordens físicas, mentais e emocionais. Uma vez perdida, a graciosidade só pode ser recuperada restabelecendo-se a espiritualidade do corpo. Uma perspectiva energética nos permite compreender a verdadeira natureza da graça e da espiritualidade do corpo sem que tenhamos que apelar para o misticismo.

O conceito de graça engloba o espírito e a matéria. Na teologia, a graça é definida como a influencia divina que atua dentro do coração para regenerá-lo, santificá-lo e conservá-lo. Ela também pode ser definida como o espírito divino que atua dentro do corpo. O espírito divino manifesta-se na graciosidade natural do corpo e na amabilidade das atitudes da pessoa para com todas as criaturas de Deus. A graça é um estado de santidade, de inteireza, de conexão com a vida e de unidade com o divino. E também reflete um estado de saúde.

De acordo com Lowen, a saúde física e mental se reflete na vitalidade do corpo, a qual se manifesta no brilho dos olhos, na coloração e no calor da pele, na espontaneidade da expressão, na vibração do corpo e na graciosidade dos movimentos. Os olhos têm especial importância, porque são o espelho da alma. Neles pode ser vista a vida do espírito. Na maioria dos casos a perda do brilho dos olhos esta ligada a experiências de horror vividas na infância.

A bioenergética defende que toda experiência vivida por uma pessoa afeta seu corpo e é registrada na sua mente. Se houve tensão muscular crônica no corpo os impulsos naturais estarão inconscientemente bloqueados.

Mais cedo ou mais tarde, porem, no decorrer do processo de crescimento, as crianças vão perdendo a graciosidade à medida que são forcadas a deixar de lado seus impulsos interiores para se adequarem as expectativas externas. Quando os seus próprios impulsos contrariam os pais, as crianças são ensinadas a considerar ruim o seu comportamento.

Enquanto a criança pode chorar a vontade, seu corpo permanece flexível. Todavia chega o momento em que a criança é repreendida por chorar. E aí que a criança é afastada do seu estado de graça e se transforma num individuo que não é mais livre para buscar sua satisfação. Portanto, a perda da graciosidade é um fenômeno físico.

O corpo sem energia caracteriza-se por uma relativa falta de graça e de vitalidade. Seus movimentos tendem a ter um caráter mecânico. Segundo Huxley é preciso resgatar a graça animal que é inata ao homem para resgatar a vitalidade. A graça animal chega aos humanos quando, em vez de maltratar o nosso corpo e interferir com o funcionamento da nossa inteligência animal inata, nos abrimos para os benefícios do sol e para o sopro do ar, ou melhor, nos voltamos para nossa natureza interior.

E aqui poderíamos falar sobre quebra de paradigmas, sobre a relação entre o homem e a natureza, etc. No entanto, me restringir a destacar a questão energética[2], a qual acredito ser fundamental para compreendermos a riqueza e a amplitude da pratica do Yoga, uma técnica milenar que traz para a cultura ocidental o que estava faltando, a espiritualidade do corpo.

Atualmente o Yoga para crianças é um caminho para o desenvolvimento de uma vida mais saudável e plena. Pois busca despertar o lado natural e feliz da criança, resgatando a sua graciosidade e espiritualidade.

A estrutura de uma aula de yoga para crianças baseia-se em quatro pontos fundamentais:

· conscientização corporal (prática de asanas – posturas)

· respiração (pranayamas: técnicas de respiração)

· concentração e relaxamento (drisht: focalização do olhar, yoga nidra)

· yamas e nyamas (ensinamentos éticos)

A prática do Yoga abrange os aspectos: físicos, emocionais, espirituais e sociais. Através da prática do Yoga a criança desenvolve seu potencial, fazendo crescer a confiança em si própria, ao mesmo tempo em que adquire a paz e a harmonia com sua própria natureza. Assim, os ensinamentos do Yoga poderão ajudar a compreender melhor valores universais como a paz, o amor, a retidão; e conseqüentemente melhorar a sua qualidade de vida.

Quando sentimos o amor dentro dos nossos corações estamos em comunhão com o Universo. Quando demonstramos esse amor nos conseguimos construir uma ponte que nos uma ao nosso semelhante. Um ato de bondade pode sensibilizar o espírito e despertar a alma para uma vida maravilhosa. A pessoa bondosa aceita os outros não por obrigação, mas por amor. Isto não significa que ela nunca fique irritada, mas que sal cólera é franca e de curta duração. Depois de uma tempestade o céu fica claro e o sol brilha intensamente.

Se estivermos cheios de ódio, o coração se contrai e a alma encolhe. Se estivermos afáveis e bondosos, o coração se expande e a alma dilata se. O brilho de um sorriso bondoso deriva de um coração repleto de bons sentimentos. A simpatia de uma pessoa bondosa origina-se de sua intensa paixão pela vida e da ausência de rigidez.

Por mais que acreditemos poder explicar o funcionamento do corpo, em seu âmago esta o mistério do amor. Podemos sentir uma ressonância entre a pulsação do coração e a pulsação do universo. Embora a pulsação da vida ocorra em todas as células e órgãos do corpo, ela é sentida com mais intensidade nos batimentos cardíacos e vivenciadas mais vigorosamente no sentimento de amor.

Amar a nós mesmos significa amar a vida e a todas sãs coisas vivas. A pessoa não pode amar completamente outro ser humano a menos que ame a si mesma. Sentindo amor por nos mesmos, podemos alcançar a graça, conforme definida por Huxley – a graça animal, a integridade proporcionada pelo fluxo pleno e livre da excitação através do corpo; a graça humana, vivendo de acordo com o principio seja honesto consigo mesmo e entendendo esse principio aos seus semelhantes através de um comportamento amável e bondoso, e a graça espiritual através da conexão com uma ordem superior. Somente através da integração da personalidade nesses três níveis é que podemos alcançar a transcendência que chamamos de estado de graça, a espiritualidade do corpo.

Possíveis benefícios do Yoga para Crianças:

· melhora a capacidade do sistema circulatório e respiratório

· fortalece o sistema imunológico em desenvolvimento

· ajuda a manter as crianças mais saudáveis e conscientes

· aumenta a flexibilidade da coluna vertebral e de todo o corpo

· desenvolve a atenção, a concentração e a disciplina

· estimula a criatividade e a imaginação

· libera a agressividade de forma criativa

· promove bem estar e paz interior

· aumenta a graciosidade como forma de equilíbrio físico e mental

· promove o autoconhecimento

Portanto, o Yoga para crianças com uma metodologia lúdica e criativa (como será exposto a seguir) contribui para o despertar do estado natural da criança: de descontração, espontaneidade, vitalidade e flexibilidade; o qual esta sendo perdido ou mesmo bloqueado por nossa sociedade, a qual a partir de imposições e condicionamentos do meio ambiente e da cultura vem disciplinando as crianças cada vez mais cedo para se adequarem ao universo materialista; sendo essa uma das causas primordiais dos problemas sociais atuais.

[1] Desde que me formei em psicologia percebi que existia um vazio enorme naquele curso que buscava compreender a alma humana mas voltava-se apenas para os aspectos mentais esquecendo de que o ser humano em sua totalidade envolvia os aspectos físicos, emocionais, mentais e espirituais. Insatisfeita busquei conhecimento em outras áreas dentre as quais a antropologia, a espiritualidade, a corporal (bioenergética) me causaram grande fascínio. Depois que comecei a praticar Yoga minha vida mudou e então compreendi que para cuidar do sofrimento humano era preciso muito mais do que eu imaginava ou aprendera. Comecei meu caminho interno como praticante de yoga, depois busquei formação para começar a dar aulas de yoga para adultos e claro que essa opção refletiu no meu trabalho como psicóloga clinica e social.

[2] O conceito energético: o pensamento do oriente caracteriza-se por associar o espírito ou a espiritualidade com um perspectiva energética do corpo. Enquanto o pensamento ocidental trata a energia em termos materiais e mecanicistas.

Os iogues mirins

YOGA PARA CRIANÇAS
Aos poucos minutos para as 3 da tarde, sempre às quartas-feiras, uma Kombi branca despeja crianças, ainda de uniforme, em uma escola de ioga na zona sul paulistana, a Shivalaya, no Brooklin. Não é de hoje que filhos de pais adeptos da milenar prática indiana recebem aulas adaptadas ao público infantil. Alguns colégios particulares oferecem ioga visando aumentar a concentração e baixar a ansiedade dos alunos, não raro estressados pelo excesso de atividades. Pois os iogues mirins da Shivalaya, que usam uniformes remendados de escolas públicas, estão sujeitos a outros tipos de estresse. (Clique na foto ao lado para ver mais imagens)

Recentemente, foram despejados da favela Jardim Edite, aquela que estava no caminho da Ponte Estaiada. Para que a fotogênica obra viária se impusesse, barracos vieram abaixo. Oito centenas de famílias espalharam-se por Paraisópolis, Campo Limpo, Real Parque e outras favelas da região. Por conta do êxodo, alguns deixaram de frequentar o Núcleo Assistencial Irmão Alfredo (Naia), que desde 1982 oferece atividades para crianças carentes – tais como as aulas de ioga. Os que ficaram, chegam e saem da Shivalaya de Kombi todas as quartas-feiras. “Eles adoram”, diz a monitora Marinalva Moura, que os acompanha.

“Apesar de a maioria ter uma vida sofrida, realçamos o quanto são especiais. Eles não são coitadinhos”, defende o professor João Carlos Soares, mais jovem do que seus 44 anos. Ele pratica ioga há quinze e criou um método para crianças. Além de aulas para adultos, mantém um site e dá cursos de Ioga com História para professores.

No saguão da Shivalaya, cinco meninos e seis meninas, entre 6 e 11 anos, depositam os tênis ao pé do escaninho e sobem até o terceiro andar. A sala é ampla, com uma janela de vidro ao fundo, piso de madeira e nenhuma mobília. Em relativo silêncio, pegam, cada um, uma esteira de borracha e estendem. Meninas formam uma fileira, meninos outra. Soares, de bermuda e camiseta, senta-se à frente, de pernas cruzadas, sorri e observa. Quando todos estão na mesma posição, levanta-se, imposta a voz e abre os braços com ênfase teatral.

“Eeeeera uma vez… um imperador!”, diz, ao puxar Henrique dos Santos, de 10 anos, que passa a interpretar o imperador. “Ele era muito velho”, diz Soares, ao que o garoto arqueia as costas, “e procurava um herdeiro para o trono.” Daí por diante, o enredo se desenrola de modo que cada um dos onze pequenos tenha um papel. Soares dá as falas e o personagem da vez as repete. Às vezes uma criança tropeça nas palavras, as demais riem. E a história continua.

“Ping fez o melhor possível, e o melhor possível sempre merece ser coroado”, narra, já próximo do fim da fábula, cuja moral é a sinceridade recompensada. “O que podemos aprender com essa história?”

“A não mentir”, diz uma menina. “A alcançar o que você pode”, completa um garoto. “Às vezes eu faço uma coisa que não dá certo”, emenda o professor, “mas a gente tem de ter…”, e deixa a frase no ar para os pequenos completarem quase em coro, dedinhos para o alto, “perseverança!”

Finda a encenação, começam os movimentos. É hora de tirar as meias e ficar de pé. Soares percebe que Aline Oliveira de Queiroga, de 8 anos, está tristonha. “Tudo bem?”, ela faz que não com a cabeça. “Minha tia morreu.” Silêncio. O movimento proposto é fechar os punhos e, num grito, ao abri-los “jogar pra fora o que a gente não quer: tristeza, medo, tudo de ruim”, orienta o professor. “Aaaaahhhh!!!”, gritam todos.

Em seguida, Soares sugere alongamentos, sempre com referências à fábula recém-contada. “Se o Ping quiser coçar o nariz com o pé, ele consegue?” Mal demonstra o movimento e a criançada executa. “E dá pra coçar com os dois pés?”, propõe em desafio maior. Os menorzinhos do grupo, Anderson Fausto, de 7 anos, e Helen Novaes, de 6, se olham, riem, rolam para trás com os pés bem acima da cabeça.

A brincadeira também é séria. Tanto que, em instantes, todos se levantam para fazer a Saudação ao Sol, uma sequência básica de movimentos da ioga. Algumas etapas têm nome de bichos, “crocodilo”, “cachorro para baixo”, “cachorro para cima”. Soares ordena correções: “Mais perto do chão, Joyce”, “Encaixa o quadril, Henrique”, “Olha pra barriga, Anderson”…

Depois é hora de realizar posições mais acrobáticas, tais como apoiar as pernas sobre os antebraços ou ficar de ponta-cabeça. A orientação é não competir: “Sem olhar pro lado, quem não conseguir tudo bem”. Aliás, o professor instituiu que dizer “eu não consigo” é palavrão. Proibido por lá. “Acredito na força das palavras. Se eles dizem que não conseguem, acabam não conseguindo mesmo”, explica depois.

A aula está quase no fim. Hora de relaxar e meditar. É quando a sala parece ficar repleta de pequenos monges, sentados de olhos fechados e mãos unidas. A música suave e a voz do professor convidam a uma pequena viagem: “Imagine que você é uma sementinha que cresce cada vez mais saudável, mais feliz, mais inteligente”. Um pequeno boceja, outra coça os olhos, os maiores parecem mais concentrados.

No final, Guilherme da Silva, de 7 anos, solta uma lágrima. “Foi por causa da música?” Faz que sim com a cabeça. Soares pede que tente pensar em coisas alegres, e chama a classe a participar: “Quem lembra daquele mantra?” Imediatamente um coro de vozes fininhas inicia a cantar Loka/ Samasta/ Sukhino/ Bhavantu… devagar e ritmado. “E o que significa?”, incita o mestre. Aline corre a traduzir: “Que todas as crianças e pessoas sejam abençoadas”, e abre um sorriso de aluna orgulhosa.

Sentados em círculo, em torno da repórter a quem chamam de “professora”, eles falam sobre ter aulas de ioga. Em comum, o fato de nenhum pai ou conhecido saber do que se tratava até ser informado pelos próprios. E também o fato de terem ensinado muitas das posições para primos, vizinhos e irmãos. “Eu saio daqui mais feliz e calmo, e mais forte também”, garante Guilherme. “Eu fico mais leve”, consegue abstrair a mais velha, Renata Pereira, de 11 anos. “Eu saio calmo”, diz Henrique.

Soares, que não é remunerado pelas aulas, sai visivelmente satisfeito. “A ioga já me fez tão bem que quero que isso chegue nas crianças da favela. Como um sonho mesmo.” Sem a bagunça que se poderia esperar de um grupo de escolares, eles descem as escadas, calçam os tênis velhos e vão embora, de Kombi, até a próxima semana.